Nesse NitroDicas para escritores iniciantes falo sobre como criar Cenas.

NitroDicas 12: Como Criar Cenas – Elementos da Trama 4

NitroDicas 12 - Como Criar Cenas - Elementos da Trama 4
NitroDicas 12 – Como Criar Cenas – Elementos da Trama 4

Introdução:

* As dicas são sugestões, baseadas nas dicas de muitos escritores profissionais e mestres da narrativa e na minha experiência.

* O objetivo é compartilhar conhecimentos e conceitos básicos de criação de histórias e como melhorar e tornar mais clara a narrativa.

* Escrever é uma arte, onde se PODE FAZER DE TUDO, o escritor é livre para escrever como quiser. Essas dicas, sugestões e conceitos básicos servem para auxiliar, mas NADA substitui o principal: escrever MUITO, ler MUITO. A melhor maneira de se aprender a escrever é escrevendo e reescrevendo. Nada substitui a prática!

* Para quem está começando, recomendo começar com contos ou histórias curtas, para experimentar, aprender a reescrever, editar, descobrir seus pontos fortes e fracos, pegar feedback com amigos, leitores, etc. e ir fortalecendo os músculos literários. Depois de muitos contos escritos, você pode passar para livros naturalmente. Essa é a minha sugestão, mas todo mundo é livre para começar a escrever como quiser. 🙂

A cena é a unidade fundamental da ficção. Cada cena é uma mini-história, com começo, meio e fim. No final de uma cena, pelo menos um dos personagens tem que ter passado por algum tipo de mudança.

A literatura contemporânea tem, normalmente, dois tipos diferentes de cenas, classificadas pelo que acontece no começo, meio e fim delas:

CENAS PROATIVAS

Uma cena que contém um OBJETIVO (começo), um CONFLITO (meio), e um REVÉS ou NOVA DIFICULDADE (fim)

CENAS REATIVAS

Uma cena que contém uma REAÇÃO (começo), um DILEMA (meio) e uma DECISÃO (fim).

Uma cena, seja qual for o Ponto de Vista narrativo, precisa ter um personagem focal, o foco da narrativa de uma cena.

Na narrativa contemporânea, Cenas Proativas se alternam com Cenas Reativas, criando a ilusão de uma narrativa imersiva. Depois das cenas, os romances podem contar com sumários narrativos, ligando uma ou mais cenas com outras cenas. Romances literários e experimentais brincam com essas convenções, mas a grande maioria dos romances comerciais, além da narrativa de cinema, televisão, quadrinhos e videogame seguem essa alternância entre cenas Proativas e Reativas.

Um romance possui centenas de cenas, que podem ser curtas como uma frase ou longas tomando vários capítulos.

CRIANDO CENAS PROATIVAS

São as cenas que seguem a seguinte estrutura OBJETIVO-CONFLITO-REVÉS.

1) Objetivo  – O protagonista tem um objetivo que quer alcançar no final da cena.

2) Conflito – Durante o meio da cena, o protagonista tenta repetidamente conseguir esse objetivo, mas é dificultado por obstáculos.

3) Revés – No final da cena, ele ou falha em atingir seu objetivo ou atinge o objetivo mas algo pior acontece, anulando essa pequena vitória.

Para criar uma cena proativa, faça as seguintes perguntas:

1) Quem é o personagem foco da cena?

2) Qual é o seu objetivo para a cena?

O objetivo de uma cena deve ser SIMPLES e OBJETIVO, facilmente visualizado pelo leitor.

O objetivo tem que ser VÁLIDO para a narrativa (construir personagem ou avançar a trama, ou os dois)

O objetivo tem que ser ALCANÇÁVEL, se for impossível, ele mata a cena e a torna inútil na narrativa. É aquele momento em que o leitor se pergunta, “mas por que diabos estou lendo isso?”, e nós temos que evitar!

O objetivo tem que ser DIFÍCIL, se for muito fácil a cena perde em TENSÃO. É a TENSÃO CRESCENTE em uma narrativa que cria o efeito “leitura viciante” ou seja, torna impossível o leitor largar o livro.

A IMPORTÂNCIA DO CONFLITO PARA UMA CENA PROATIVA

O conflito é essencial, uma cena proativa tem que ser de 80 a 90 por cento de conflito. Não tenha dó do seu protagonista, empilhe dificuldades atrás de dificuldades em cima dele. Não deixe o seu protagonista desistir prematuramente. Mais para frente vamos falar um pouco de como aumentar o conflito na narrativa.

O REVÉS OU O DESASTRE NO FINAL DE UMA CENA

Quanto mais tarde acontecer o REVÉS no final de uma cena melhor. A técnica do gancho narrativo é colocar, na frase final, o revés. Isso torna impossível parar de ler, mas, como toda técnica narrativa, tem que ser usada com parcimônia, ou o seu leitor vai sacar a estrutura e ficar sempre esperando o gancho no final da cena.

O revés deve ser:

CLARO e ligado ao objetivo da cena.

Deve ser o resultado da PERSISTÊNCIA do personagem focal.

Deve deixar o personagem focal PIOR do que ele estava no início da cena.

Deve, se possível, ser INESPERADO mas ao mesmo tempo seguir LOGICAMENTE a narrativa.

Depois de uma cena proativa terminada com um revés, segue-se uma cena REATIVA, onde o protagonista toma fôlego novamente para criar um novo objetivo e tocar a trama em frente.

COMO CRIAR CENAS REATIVAS

Essas cenas se seguem às cenas proativas e tem a seguinte estrutura:

1) REAÇÃO – No começo da cena reativa, o protagonista está se recuperando do revés da cena anterior. Ele passa um tempo reagindo emocionamente a cena anterior e finalmente assume controle dos seus sentimentos.

2) DILEMA – Durante o meio da cena reativa, o protagonista tem que descobrir o que irá fazer em seguida.

3) DECISÃO – Eventualmente o protagonista toma uma decisão, que lhe dá um novo OBJETIVO que dá início a uma cena PROATIVA.

A REAÇÃO

Na CENA REATIVA, a Reação pode ser longa ou curta, dependento do tipo de Revés que aconteceu na CENA PROATIVA. A reação, em geral é emocional. O tamanho varia do estilo da narrativa, uma narrativa mais introspectiva, a reação emocional é mais longa, em um romance de ação, a reação emocional aos eventos é bem mais curta.

A reação é emocional, e vai até onde vão os sentimentos do seu protagonista. Em algum momento ele irá se acalmar e começar a pensar mais racionalmente, é nesse momento que a reação termina e você segue em frente.

O DILEMA

O dilema é o momento, depois da reação, que o protagonista tem que pensar racionalmente em suas opções de ação. O dilema pode ser curto ou longo, dependendo da situação em que o protagonista se encontra e do tipo de narrativa e de personagem. Em algum momento, o protagonista precisa tomar uma decisão.

A DECISÃO

No final da cena reativa, o protagonista decide um curso de ação. Essa decisão tem que ser:

Simples – O personagem precisa claridade de visão em sua decisão e deve ser comunicada claramente para o leitor.

Objetiva – O leitor precisa ser capaz de visualizar claramente o que o personagem irá fazer logo em seguida. (Exemplo: cenas do seriado The Shield).

Válida – O leitor precisa acreditar que o personagem poderia tomar a decisão que tomou, baseado em seus valores (ou na mudaça de seus valores por causa do dilema).

Alcançável – A decisão só é válida se for possível. Se não for possível, o personagem ainda está no dilema.

Difícil – A decisão deve levantar dúvidas no leitor sobre a capacidade do protagonista de conseguir realizar.

ESTRUTURANDO CENAS PROATIVAS E REATIVAS

Normalmente você segue cenas proativas com reativas. Porém, se você quiser acelerar a história, você pode usar uma cena proativa atrás de outra cena proativa, ou usar cenas reativas curtíssimas.

Se você quiser diminuir a velocidade da narrativa, basta aumentar as cenas reativas.

Cenas reativas são ótimas para construir personagens, colocando lembranças, memórias, diálogos que revelam o passado e a personalidade do personagem.

Entre uma Cena Proativa e Reativa você pode mudar o Ponto de Vista Narrativo, usando essa alternância para introduzir novas narrativas na história.

Atualmente, os romances tendem a deixar as cenas reativas mais simples e essenciais possíveis, focando mais em cenas proativas.

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