Uma das coisas que mais busco em um romance de fantasia é a sensação de estar lendo algo diferente, uma nova forma de usar os temas tradicionais desse tipo de narrativa. A grande profusão de livros de fantasia faz com que os clichês contaminem muitos autores. Clichês surgem principalmente da preguiça dos autores em se esforçar para criar algo diferente, ou pelo menos retrabalhar os elementos tradicionais em uma forma que fique interessante para os leitores mais veteranos de fantasia.

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Não é por acaso que virei um seguidor fiel da obra de Matthew Woodring Stover. Seus Acts of Caine (cujos quatro volumes resenhei aqui: Heroe’s Die, Blade of Tyshalle,  Caine Black Knife, Caine’s Law) são fascinantes pelo modo como ele renova, desconstrói e ao mesmo tempo reforça a tradição literária da Espada e Magia, introduzindo elementos contemporâneos ao mesmo tempo que mantém a energia e a selvageria tradicionais do gênero.

Capa Alemã de Iron Dawn
Capa Alemã de Iron Dawn

Corri atrás dos outros livros do cara, e descobri seus dois primeiros livros, a duologia Heart of Bronze, Iron Dawn (vol.1) e Jericho Moon (vol. 2). Esses livros, que estão fora de catálogo, forma recentemente republicados em versão ebook no site Fsand. A versão física do livro possui uma capa que não ajuda muito, mas a história é muito boa, e dá para notar já nesse primeiro livro, que esse é o autor que futuramente escreveria Heroe’s Die (que também ganhou inicialmente uma capa horrenda).

Iron Dawn, publicado em 1997, antecipou a onda de mulheres guerreiras com Barra, uma bárbara picta que usa machados como sua arma favorita. A história se passa na Era do Bronze, na cidade de Tiro, a cidade mais importante da Fenícia, pouco tempo depois da batalha de Tróia (1.200 a.C.). Barra é uma mercenária, e junto com seus parceiros, o gigante ateniense Leucas, e o mago egípcio tarado viciado doidimais Kepheru, enfrentam uma grande conspiração que ameaça toda a região.

A narrativa mistura elementos fantásticos com uma recriação histórica da cidade de Tiro, que, como um centro comercial importante do período, é repleta de mercadores, mercenários e viajantes de diversas partes do mundo. A prosa de Matthew é bem ágil e viva, e apesar da primeira parte da história ser mais lenta, os personagens são bem caracterizados, principalmente a guerreira Barra (que é uma mãe solteira que preferiu a vida de mercenária a ficar em casa cuidando dos filhos).

A Cidade de Tiro - Século 10 a.C.
A Cidade de Tiro – Século 10 a.C..A segunda parte do livro é emocionante e, mais uma vez, o final é bem desesperador, bem no estilo do Stover. Esse autor é da escola “George R.R. Martin” de sentar o cacete em seus protagonistas, o que torna Iron Dawn mais um livro para leitores de nervos fortes.

Kepheru, o mago egípcio, é um espetáculo a parte e o livro valeria só para conhecer esse mago pervertido. Sua magia é baseada em pós, poções e conhecimentos químicos (que para a época era algo totalmente sobrenatural).

Fica a recomendação, um excelente livro de fantasia que quebra várias expectativas do leitor de maneira inteligente.

E agora vamos para Jericho Moon, infelizmente o segundo e último livro desse cenário.

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