Personagens bem construídos é o segredo de qualquer narrativa que prende o leitor. Dentre os livros com dicas para escritores focado na criação e desenvolvimento de personagens na narrativa, Character and Viewpoint, do Orson Scott Card (o autor de Ender’s Game), é um dos mais famosos.

O livro está dividido em três partes, respectivamente, a Invenção de Personagens, a Construção de Personagens e a Representação de Personagens. Cada uma das partes é repleta de dicas para as diversas etapas da caracterização, a junção de todos os elementos de uma narrativa que contribui para formar a imagem de um personagem na mente do leitor. Quando uma caracterização é bem feita, a história fica mais instigante e gera a sensação de que os personagens agem com realismo.

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INVENTANDO PERSONAGENS

Na primeira parte do livro descreve o processo de invenção de personagens, de desenvolvimento de idéias e concepções em personagens prontos para sustentar uma narrativa. Algumas dicas dessa parte do livro:

* Um personagem é caracterizado através dos seguintes elementos:
– Suas ações.
– Suas motivações. (porque ele age do jeito que ele age)
– Sua reputação. (o que os outros pensam sobre ele)
– Sua visão pessoal de si mesmo.
– Sua rede de relacionamentos (dize-me com que andas que te direi quem és)
– Seus hábitos e padrões.
– Seus talentos e habilidades.
– Seus gostos e preferências.
– Sua descrição física (que é o de menor importância em uma boa caracterização, apesar de escritores iniciantes focarem mais na descrição física do que nos demais aspectos).

*O leitor sempre faz a seguinte pergunta, consciente ou inconsciente: Porque devo me preocupar com o que está acontecendo na história?

* Conheça os seus personagens entrevistando-os. Abra um arquivo e faça perguntas para o seu personagem, para entender sua visão de mundo. Algo como “O que é mais importante para você?”, “O que você acha do personagem X”, “Qual é o seu maior medo?”, etc. Isso ajuda a descobrir o elemento mais importante de um personagem: sua motivação principal, o conflito interno que sustenta sua visão de mundo e em cima do qual toda a sua personalidade se baseia.

* Se um personagem está muito estereotipado, quebre o esteriótipo descobrindo mais sobre o personagem. Crie (ou melhor deixe ele contar) sua vida, desde quando nasceu até o momento da narrativa. Veja o que pode ter influenciado sua vida, que tipo de experiências ele passou, que nuances e que novas facetas ele mostra para o mundo.

* Um personagem bem construído revela diferentes modos de ser, dependendo das relações sociais que ele se envolve. Normalmente mostramos faces diferentes em casa e no trabalho, entre amigos e com nossa família, faces muitas vezes antagônicas e contraditórias. Um personagem bem construído também irá apresentar essas diferentes faces, quebrando o esteriótipo.

* Cuidado ao usar pessoas do mundo real como personagens, elas poderão se ofender. Uma dica é combinar pessoas que se conhece ou usar apenas alguns aspectos para caracterizar um personagem.

* Um nome de personagem bem escolhido pode contribuir na caracterização e até mesmo poupar parágrafos de descrição.

* Evite usar mais de um nome para um personagem ao invés de usar alcunhas ou palavras diversas que aludem o personagem, pois isso pode causar confusão no leitor.

* Boa caracterização é a criação do personagem ao longo da narrativa, de modo que ele pareça real e vivo para o leitor.

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CONSTRUINDO PERSONAGENS NA NARRATIVA

Essa parte do livro aborda técnicas para construir personagens ao longo da narrativa. Um dos pontos importantes levantados por Orson Scott Card é que o modo e a profundidade de caracterização varia de acordo com o tipo de história que se procura contar. Seguem algumas dicas dessa parte:

*Existem quatro fatores presentes em qualquer tipo história, com diferentes graus de ênfase, e que determinam qual é a melhor maneira de fazer a caracterização. Cada um desses fatores é diferente dependendo do tipo de história que se quer contar. Os fatores são:

MEIO, MISTÉRIO, PSICOLOGIA e EVENTO

O MEIO é o mundo ao redor dos personagens, o cenário e seus habitantes.

O MISTÉRIO é a informação que o leitor precisa descobrir ou aprender durante o processo de leitura da história.

A PSICOLOGIA é a natureza de um ou mais personagens da história, o que eles fazem e porque eles fazem o que fazem. Isso leva a uma conclusão sobre a natureza humana em geral.

O EVENTO é um acontecimento importante, um problema no cenário da narrativa cuja solução (ou reação a ele) move a trama.

Esses fatores se sobrepõe entre si. Um personagem A pode fazer parte do MEIO do personagem B. A MISTÉRIO de uma história pode incluir informação sobre a PSICOLOGIA de um personagem ou pode ser um aspecto do MEIO, que foi previamente mal entendido.

Exemplos:
Senhor dos Anéis é uma narrativa mais focada na descrição do MEIO (o mundo da Terra Média), e nos EVENTOS (a ascenção de Sauron, guerras, ameaças, lutas, jornadas, etc.). Em seguida, a narrativa trata da PSICOLOGIA , de maneira mais aprofundada em alguns poucos personagens, e contando com elementos de MISTÉRIO (mistérios e secredos da Terra Média que são revelados ao longo da narrativa).

Memórias Póstumas de Brás Cubas é mais focado na PSICOLOGIA (com a narrativa lidando mais com as neuroses do protagonista e suas opiniões sobre o que acontece), depois o MEIO (descrição da sociedade da época), e em menor grau MISTÉRIO e EVENTOS (os acontecimentos que mudam a vida de Brás Cubas).

Histórias mais focadas no MEIO servem mais para mostrar o cenário do que para focar em dramas de personagens. Normalmente envolvem jornadas pelo protagonista em vários lugares. Um exemplo é o Viagens de Gulliver. A caracterização tende a ser mais simples e usando tipos mais genéricos, pois o foco está em mostrar o meio, o cenário, o ambiente da história.

Histórias mais focadas no MISTÉRIO tem uma estrutura simples. Um problema ou uma questão é apresentada no começo da história e no final sua resposta é revelada. Narrativas de mistério, histórias de crimes e de detetive caem dentro desse tipo. Ficção Científica também possui muitos exemplos desse tipo de história. Atualmente, histórias de detetive possuem uma caracterização mais profunda do que antigamente, mas o foco de uma história de IDÉIAS está na revelação do mistério que ela propõe.

Histórias mais focadas na PSICOLOGIA são sobre pessoas tentando mudar suas próprias vidas. Essas histórias começam quando o personagem principal acha seu presente intolerável e tenta mudá-lo. Esse tipo de história termina quando o personagem ou encontra um novo papel na vida ou retorna relutantemente para seu antigo papel. É o tipo de história que requer uma caracterização mais profunda, pois o foco da narrativa é no drama interior dos personagens e nas mudanças que acontecem em sua natureza. A maioria dos livros de Machado de Assis são de histórias de Natureza Humana.

História mais focadas nos EVENTOS são aquelas que a preocupação principal da história estão nos eventos. O mundo da narrativa está desbalanceado, em crise, decadente, ou entrando em um período de calamidade e destruição, e a história é um esforço para restaurar o equilíbrio perdido. O Senhor dos Anéis seria uma história cujo o fator EVENTO (o perigo de Sauron) é proeminente..

Uma história que começa com um foco em um desses fatores e depois muda de foco perde sua força com o leitor. Por exemplo, se uma história é claramente focada no MISTÉRIO (como a série Lost, por exemplo), o leitor/espectador acredita que em algum momento o fator MISTÉRIO vai ser revelado, com base na sua expectativa narrativa. Se o MISTÉRIO não é revelado satisfactoriamente, muito dos leitores ficarão frustrados com a narrativa.

Uma história que começa com o fator EVENTO em evidência (um apocalipse zumbi por exemplo) e depois se transforma em uma história com foco em PSICOLOGIA apagando qualquer indicação de que o fator EVENTO será novamente o foco da narrativa pode passar a sensação de que a narrativa está lenda, enrolada e chata, se perdendo em dramas internos dos personagens. Nesse caso, o escritor pode mudar o foco da narrativa desde o início, transformando a história em uma narrativa de PSICOLOGIA, com o fator EVENTO diminuído. Isso muda a percepção do leitor e a narrativa é mais bem sucedida.

Caracterização inclui saber quais momentos se deve concentrar no personagem e em quais momentos não se deve concentrar no personagem, e deve se adaptar ao foco narrativo que você quer dar na sua história, seja MEIO, PSICOLOGIA, EVENTO ou MISTÉRIO.

* A primeira impressão de um leitor em relação a um personagem determina o sucesso ou o fracasso de uma narrativa. O escritor deve prestar atenção em como apresentar seus personagens, em como construir as primeiras cenas em que eles se apresentam para ganhar o interesse do leitor.

* Mesmo que não se apresente na narrativa, todo personagem precisa de um passado. É dever do escritor criar esse passado para os personagens mais importantes da narrativa, ou correrá o risco de cair no clichê.

REPRESENTANDO PERSONAGENS

Na terceira e última parte do livro, Orson Scott Card explica a técnica do escritor como um ator, representando seus personagens dentro da narrativa. Essa última parte analisa com grande profundidade os diferentes Pontos de Vista Narrativos, mostrando suas vantagens e desvantagens. Seguem algumas dicas:

* A narrativa em Primeira Pessoa, e Terceira Pessoa Limitada são as mais usadas atualmente pelos escritores.

* A narrativa de Terceira Pessoa Limitada é a mais transparente, e uma das mais indicadas para escritores iniciantes.

* A narrativa em Primeira Pessoa cria uma ligação íntima entre o leitor e o narrador, porém pode se conseguir o mesmo efeito usando Terceira Pessoa Limitada.

* Cada tipo de história vai exigir um tipo de narrador.

* O Ponto de Vista Onisciente de Terceira Pessoa é muito útil para romances épicos e históricos, porém cria uma distância entre o leitor e os personagens, já que o Ponto de Vista varia entre diversos personagens. Nesse caso, a história geral da narrativa deve ser fascinante o suficiente para manter o interesse do leitor.

* Escrever narrativas no tempo verbal do Passado é o mais comum e o mais invisível para o leitor. Narrativas descritas no tempo Presente dão um senso de imediatismo, mas os verbos no tempo Presente tendem a chamar a atenção do leitor mais para a escrita do que para a história.

* MOSTRAR (Show) é descrever passo a passo uma cena, como se estivesse acontecendo no presente. CONTAR (Tell) é sumarizar ou resumir uma narrativa, que aconteceu antes da próxima cena da história.

* Show vs. Tell vs. Ignore – O escritor deve sempre balancear quando deve “MOSTRAR”, quando deve “CONTAR” e quando deve “IGNORAR” em relação aos acontecimentos da narrativa. MOSTRE as cenas essenciais, de forte conteúdo emocional, CONTE o necessário para contextualizar ou ligar uma cena a outra e IGNORE tudo aquilo que não for essencial para a narrativa. Não existe receita para quando se deve MOSTRAR ou CONTAR; apesar de que, na dúvida, MOSTRE! 🙂

Essas são apenas algumas anotações que fiz a partir de uma primeira leitura do Character and Viewpoint. O que mais gostei desse livro foram os exemplos que sustentam cada uma das dicas. Orscon Scott Card dá exemplos extensos do que se deve fazer e do que se deve evitar na caracterização.

Recomendo muito esse livro para escritores iniciantes e avançados, e devo relê-lo no futuro!

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