A cruzada do Great Ordeal, liderada pelo messias Kelhus, continua em sua luta para parar o Segundo Apocalipse. Porém, apesar dessa aparente forma épica de narrativa, R. Scott Baker tem um plano sinistro: desconstruir e inverter todos os motivos e arquétipos da literatura épica, criando algo que só pode ser chamado de anti-épico.

Os temas dos livros anteriores continuam em White-Luck, e fica claro que o principal alvo do diálogo literário de Bakker é Tolkien. Tanto a série Aspect Emperor quanto a Prince of Nothing funcionam como um espelho sombrio, pervertido, nihilista, desconstrutor dos arquétipos criados pela saga dos Senhor dos Anéis. E isso torna todas as escolhas narrativas de Bakker fascinantes. Arriscaria até dizer que é um projeto post-moderno de revisão do que chamamos de literatura de fantasia.

Mapa de Earwa - Cenário da Saga de R. Scott Bakker
Mapa de Earwa – Cenário da Saga de R. Scott Bakker

A narrativa continua dividida em diversos pontos de vista, cada um seguindo uma trama paralela dentro da cruzada contra o Segundo Apocalipse. O Aspect-Emperor Anasurimbor Kelhus e seu exército de centenas de reinos (e mais de quinhentas mil pessoas!) segue para o Antigo Norte atrás do Concil, para evitar a vinda do Não-Deus (que vai acabar destruindo tudo). O Império é comandando por sua esposa, a ex-prostituta Esmenet, junto com seus filhos-monstros (os que teve com Kelhus).

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Mas a narrativa mais interessante e um dos focos principais desse volume, é a jornada do mago Achamian e sua filha bruxa Maimara (com quem ele tem um relacionamento incestuoso), que junto com um grupo de mercenários medonhos, segue em busca das ruínas lendárias de Sauglish, atrás do mistério por trás da origem do Aspect-Emperor.

A prosa de Bakker, que já era fodásica já no primeiro livro, melhora a cada volume. O ritmo da narrativa principalmente está mais frenético do que nos volumes interiores, mas sem perder as poderosas internalizações que ele cria para os seus personagens.

Apesar das cenas de combates da trilogia Prince of Nothing terem sido épicas, nada se compara às cenas de combate em massa dentro do White-Luck warrior. Bakker é o melhor escritor que conheço no que se refere a descrição de combate entre exércitos antigos envolvendo forças sobrenaturais.

Ele usa de técnicas de poesia, metáfora, prosa épica, para jogar o leitor no meio da ação ao mesmo tempo que passa a sensação de estar assistindo um momento lendário, que será cantado no futuro nas sagas de diversos povos. Fiquei impressionado novamente com sua habilidade narrativa.

Outro aspecto que gostei muito foi a caracterização do personagem Cleric, um Non-Man (a versão dos elfos do cenário). Usando as técnicas da ficção científica, os non-man são realmente diferente dos humanos, um tipo diferente de consciência, e no caso do cenário, enlouquecida e doente por causa do apodrecimento de suas memórias devido sua imortalidade. E esse é só uma das sombrias variações dos arquétipos tradicionais da literatura de fantasia. Só para deixar o mistério, a versão de um Dragão do Bakker é aterrorizante, pegando emprestado dos deuses insanos de Lovecraft.

Muitos mistérios são resolvidos nesse livro, inclusive sobre o Consult (os inimigos do messias) e sobre a história do mundo e a origem das raças não-humanas, dragões, etc. E para variar, Bakker conseguiu criar algo interessante, original e plausível dentro do cenário. E, como todo o resto, muito sombrio e horrendo.

Um dos temas mais fascinante de todos os livros é a monstruosidade inerente de um homem perfeito, ou de um super-homem no sentido nietzscheano. Kelhus é uma visão realista e sombria de um messias, que usa sua superioridade frente aos demais humanos para criar e manipular todo um império e usá-lo como uma arma contra o Não-Deus, não se importando com os milhões que sofrem e sofrerão por suas ações. Os fins justificando os meios em sua versão mais extrema.

O segundo tema filosófico de White-Luck Warrior é corrupção e redenção ou seja, até que ponto alguém pode se degenerar e não haver mais possibilidade de redenção. Outro tema interessante é o que uma alma irá fazer se lhe for prometida a possibilidade de redenção. A resposta a essas duas perguntas é a mais sombria possível, questionando tanto as noções de redenção quanto a de degeneração como sendo construções mentais carentes de sentido perante a uma realidade que ignora completamente a nossa existência. Pesado e doidimais, do jeito que eu gosto! 🙂

Fica a recomendação de uma fantasia ultrasombria (praticamente um livro de horror) adulta e que, infelizmente, dificilmente será publicada no Brasil.

Onde Comprar:

The White Luck Warrior: The Aspect-Emperor Book Two by Scott Bakker The White Luck Warrior: The Aspect-Emperor Book Two 

 

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