Katsuchyo e Caronte! Arte e Cores: Nitro

Um Samurai em Necropia. – Um Conto da Terra dos Mortos (por Newton Nitro, 2004) #nitrocontos

Um dos meus leitores me lembrou desse conto que escrevi para a revista D20 Saga nº 3, em 2004. O conto se passa na primeira versão do cenário de fantasia sombria e brutal Necropia (que futuramente voltará em forma de romances!). Achei ele perdido pela internet e finalmente estou postando aqui no NitroDungeon. O desenho é meu também, espero que gostem! 🙂

UM SAMURAI EM NECROPIA

por Newton Nitro, 2004.

A arena de Necrobol estava lotada. Katsuchiyo olhava para aquela paisagem de pesadelo. Mesmo estando meses em Necropia, o samurai de Kriptus ainda não se acostumara com a cena horrenda de milhares de mortos-vivos reunidos para as sangrentas partidas de Necrobol. Ele estava em pé, junto com outros vivos que faziam parte da barreira do time dos Degoladores Vermelhos, a última linha de defesa para evitar que o time adversário marcasse o gol. Era um grupo de dez mortais, ou Shems como são chamados os vivos em Necropia. Todos eles guerreiros capturados de outros lugares e até mesmo de outros mundos, para, assim como Katsuchiyo, servir de diversão para a elite dominante da Terra dos Mortos, os Nors.

Katsuchyo e Caronte! Arte e Cores: Nitro
Katsuchyo e Caronte! Arte e Cores: Nitro

O local era gigantesco, maior do que qualquer construção que vira em Kiosho, a região onde crescera. Enormes colunas negras e acinzentadas erguiam-se do chão sujo de terra e sangue, elevando-se por mais de sessenta metros até terminarem em pontas afiadíssimas, como se toda a arena estivesse dentro da caixa torácica de um gigantesco monstro. As colunas eram ornadas com milhares de esqueletos, contorcidos em poses que denotavam mortes violentas. Isso refletia a predileção dos Nors por tudo que os recordassem a morte; e esqueletos, espinhas dorsais, ossos e principalmente crânios estavam presentes em todos os lugares da Necrópole de Yzael.

Entre as colunas, muros enormes feito de placas de metal escuro e repletos de espinhos de ferro sustentavam as arquibancadas de pedra, onde milhares de mortos-vivos se aglomeravam. Mas os mortos vivos que gritavam histericamente para os participantes do Necrobol não eram os que Katsuchiyo tinha conhecido em seu mundo. Em Necropia, os mortos-vivos apareciam nas mais variadas formas, e em sua maioria, eram extremamente inteligentes. Além disso, consideravam sua condição de não-vida muito superior à dos mortais. Katsuchiyo já havia aprendido a diferenciar os Servos-Carniçais, que se pareciam muito com os zumbis de sua terra, dos Nors, a elite dominante de Necropia. Com olhos negros, pupilas brancas, e com peles completamente pálidas, os Nors tinham uma beleza mórbida, e mantinham sua eterna juventude através da energia negra que vinha de Ktonor, o buraco negro que tomava grande parte do céu de Necropia.

Na parte central, uma construção feita de ouro e metal se destacava das demais. Era a Tribuna Real, onde estavam o Imperador dos Mortos, Lorde Thaumiel, juntamente com a família real, seus Ministros e os Magistratos, os Juízes das partidas de Necrobol. Lorde Thaumiel, uma figura imponente com suas enormes asas feitas de metal de pele humana, e com o rosto coberto por uma máscara metálica assustadora, observava atentamente a partida. O Imperador tinha a decisão final sobre os eventos da partida, bastava apenas um gesto para que ele decidisse sobre quem viveria ou quem morreria dentro os jogadores. Tudo em nome ao entretenimento de seu povo não-vivo.

Katsuchiyo olhou para o céu e viu o gigantesco buraco negro em seu girar de morte. Shemesh, o sol de Necropia, estava ao seu lado. Como na primeira vez que ele viu os céus de Necropia, Katsuchiyo sentiu uma profunda tristeza ao ver que o buraco negro sugava Shemesh à medida que girava. Esse era mesmo um mundo amaldiçoado pelos seus deuses, um mundo entregue à morte. “Um mundo perfeito para uma vingança”, pensou Katsuchiyo.

O samurai olhou para os lados. Os seus companheiros estavam nervosos, apesar de muitos deles terem sobrevivido à outras partidas de Necrobol, essa era uma final contra o mais perigoso dos times de Zohar, os Mutiladores de Messalina. Apenas os melhores guerreiros vivos conseguiam sobreviver em uma partida de Necrobol. O esporte, o mais popular entretenimento de Necropia, tinha um altíssimo grau de violência, adaptado aos Nors e Servos-Carniçais que participavam dos times, mas que resultava em morte certa aos vivos que faziam parte das “barreiras”. Os vivos não tinham a capacidade de agüentar mutilações, freqüentes nas partidas de Necrobol, e muitos morriam nos ataques dos times dos não-vivos. Ali mesmo, ao lado de Katsuchiyo, apenas dois guerreiros haviam sobrevivido desde que ele começara a participar dos jogos. Os outros dois eram novatos, e apesar de parecerem durões, Katsuchiyo podia ver que suas pernas tremiam levemente ante a antecipação do ataque dos Mutiladores de Messalina. Os barulhos que vinham do Labirinto, uma construção enorme que cobria parte do centro da arena, indicavam que Verótika e seus guerreiros tinham perdido a Bola de Espinhos para os Mutiladores. Em breve, os Mutiladores iriam sair da construção e tentar passar por eles para marcarem o gol. Em breve, Katsuchiyo teria a sua vingança. Olhando para a espada bastarda que estava em sua mão, feita de um material vagabundo destinado para os jogadores vivos e muito diferente das obras primas de destruição que eram usadas pelos jogadores Nors, Katsuchiyo viu as runas de ativação colocadas por Verótika.

Katsuchiyo teria a sua vingança, e finalmente poderia se reencontrar com o seu amor. À medida que o ato final de sua busca de conflagrava, lembranças dançavam em sua mente, como as brasas de um fogueira que se apaga ao aproximar de uma tempestade;

* * *

Após a derrota do Dragão-Shogun Makura Kiosho depois da Guerra dos Mil Dias, Katsuchiyo fora proibido de cometer o sepuku (suicídio ritual) pelo Shogun Tengu, o vencedor da contenda. O novo Shogun, interessado em estabelecer a sua autoridade e inibir revoltas no principado de Kiosho, em Kritpus, condenou Katsuchiyo à um destino muito pior do que a morte para um samurai: passar o resto de sua vida como um camponês. Katsuchiyo, que tinha sido educado no caminho samurai pelo próprio Dragão Makura Kiosho, implorou para morrer com honra. Porém o Shogun Tengu estava irredutível. Katsuchiyo foi exilado para a vila camponesa de Shimei e condenado a nunca mais encostar em uma espada. Além dessa punição, Katsuchiyo recebeu a alcunha de “Uragimono” ou “traidor”. E para que todos que o encontrassem soubessem de sua condição, o Shogun Tengu ordenou que a palavra “Uragimono” fosse tatuada em sua fronte.

Para um homem que crescera durante Guerra dos Mil Dias e que matara seu primeiro inimigo aos doze anos, os primeiros meses na pacífica vila foram intoleráveis. A tatuagem de uraginimono o transformou no motivo de escárnio dos moradores da vila, que, além do ressentimento pela derrota dos antigos samurais do Dragão Makura Kiosho, recebiam incentivos dos soldados do Shogun Tengu para infernizar sua vida. Crianças cuspiam quando ele passava, velhas atiravam tomates podres em seu rosto, e os camponeses dificultavam como podiam o seu trabalho forçado nos campos de arroz de Shimei.

Mas, tempos depois, o destino finalmente sorriu para Katsuchiyo, impulsionado pela única força capaz de desafiá-lo: o coração. Katsuchiyo se apaixonou. Seu nome era Kohana, a filha de um falecido samurai da Guerra dos Mil Dias. Vivendo sozinha em sua casa, pois sua mãe se suicidara ao saber da morte de seu pai, Kohana também compartilhava da mesma sina de Katsuchiyo, era odiada e perseguida pelos habitantes da vila; que acreditavam que ela era uma prostituta. Juntos, as tristezas e humilhações de suas vidas desapareceram. Eram felizes, não importando com o que seus trágicos destinos exigiam de seus corações. Decidiram morar juntos, como marido e mulher, mesmo que nenhum monge viesse para abençoar sua união. E quando Kohana lhe disse que estava esperando um bebê, pela primeira vez desde a morte de seu mestre, Katsuchiyo conhecera a esperança.

* * *

O Labirinto era uma das partes mais importantes de uma partida de Necrobol. Era uma construção que erguida em sigilo pelos Mestres das Masmorras na semana anterior à uma partida de Necrobol. Nela, eram colocadas armadilhas, monstros, magias, e tudo que possa atrasar, ou até mesmo destruir, os times de Necrobol. As regras eram simples, cada time tinha que ir até o centro do Labirinto para pegar a Bola de Espinhos, que era uma esfera metálica de um metro e meio de diâmetro e pesando mais de oitenta quilos. Quatro alças metálicas eram distribuídas por sua superfície e eram usadas pelos jogadores para carregar e passar a Bola de Espinhos. O problema para os vivos que eram bons o bastante para participar dos times de Atacantes era que a Bola de Espinhos tinha um mecanismo de tempo: logo após ela ter sido tirada do centro do Labirinto, em menos de dois minutos saíam de sua superfície esporões de ferro de dois metros comprimento. Os “espinhos” empalavam completamente o jogador que estava carregando a Bola de Espinhos. No caso dos jogadores Nors ou Carniçais, o dano não era suficiente para destruí-los e muitas vezes após a bola ser retirada e recolocada no centro do Labirinto, o jogador não-vivo retornava para a partida. Mas nos casos dos jogadores vivos, os espinhos eram implacáveis: matavam instantaneamente.

O jogo acabava com um único gol, por isso, a tarefa da “Barreira” era muito importante. Pelas regras do Necrobol, as barreiras eram compostas apenas por vivos. Os mortos de Necropia se deliciavam nas carnificinas promovidas pelos Atacantes em seu avanço para liberar espaço para o Carregador, um jogador especializado em levar a bola. Após a “Barreira”, ainda havia o Goleiro, que fazia uma última tentativa para bloquear o ataque adversário. O Goleiro era sempre escolhido entre os maiores e mais monstruosos candidatos à jogadores, porém pelas regras, ele nunca poderia ajudar os vivos da Barreira: Katsuchiyo e seus companheiros estavam sós.

O time adversário começava a sair do Labirinto. Eram apenas um Atacante e um Carregador. Katsuchiyo sorriu, Verótika tinha cumprido sua parte na promessa. A sensual atacante dos Degoladores Vermelhos devia ter destruído os outros dois atacantes dentro do Labirinto, deixando apenas dois dos Mutiladores de Messalina saírem em direção ao gol. E um deles era o Nor que Katsuchiyo queria destruir.

__Hora de matar…__ murmurou Katsuchiyo, enquanto encostava nas runas mágicas na ordem em que Verótika tinha lhe ensinado. A velha e gasta espada bastarda vibrava à medida que um brilho púrpura-esverdeado aparecia em toda a sua superfície. Bolhas de carne negra começaram a surgir na espada, e ela começou a mudar de forma, aumentando de tamanho. A hora da vingança chegara, a hora de recuperar a sua honra perdida. O ódio negro que inundava sua mente trazia as imagens horrendas do dia em que ele perdera toda vontade de viver. O dia em que vira a face do Nor que estava avançando em direção a ele pela primeira vez. O dia em que conhecera Caronte, o Arauto Negro.

* * *

Katsuchiyo estava voltando dos campos de arroz. Já era noite, e ele estava faminto. Kohana tinha ficado em casa, pois sua gravidez a impedia de ajuda-lo nos campos de arroz da vila. A criança já estava por nascer, e Katsuchiyo exigiu que sua esposa ficasse deitada, como as velhas parteiras ordenavam. Pensando em seu filho, o ex-samurai nem percebeu a estranha caravana que estava parada na rua principal da vila, com várias jaulas enormes cobertas com placas de couro.

Porém, quando ele chegou em sua casa, Katsuchiyo notou algo de estranho. Vários cavalos com as cores imperiais estavam parados na frente da sua casa, inclusive com um enorme cavalo negro todo coberto com uma armadura de metal escuro. Dentro da sua casa, ele podia ver que estavam vários soldados do Shogun, aglomerados em sua sala de estar. Desesperado, Katsuchiyo gritou, correndo para a porta:

__KOHANA!!!!

Três soldados o seguraram no momento em que ele entrou na casa. Outros quatro sacaram suas katanas e as posicionaram em direção ao seu pescoço. Mas Katsuchiyo nem prestou atenção nisso, ele olhava fixamente para a enorme figura de preto que estava em sua frente.

Vestindo uma capa feita de couro negro retalhado e costurado de modo a lembrar cicatrizes, o monstro estava de costas, mostrando um pescoço branco e pálido, como a carne dos mortos. Uma série de lâminas saiam de seus ombros, como se estivessem sido implantadas na carne do gigante. Ao longo das suas costas, uma série de ganchos curvos de metal furavam a capa de couro e desciam até a sua cintura, muitos deles manchados de sangue fresco. A cabeça do gigante tinha uma estrutura de metal em forma de cruz que estava presa por enormes pregos e que parecia espremer o crânio até o ponto de partes do cérebro ficarem à mostra. Um dos seus musculosos braços portava um enorme gancho de metal, que saia do centro de sua mão e se projetava para frente. No outro, além dos vários espetos metálicos que saíam ao longo de toda a lateral do braço, o gigante segurava uma versão gigante das pequenas Shuriken usadas pelos ninjas de Kiosho, porém com um desenho muito diferente e com lâminas afiadíssimas. O estranho shuriken era enorme e pesado, parecendo mais com um escudo do que com um arma de arremesso. E pela leveza com que o monstro segurava a estranha arma, ele devia ser muito forte. Muito mais forte do que qualquer guerreiro que Katsuchiyo enfrentara em sua vida de samurai.

O sangue de Katsuchiyo gelou. Ele viu que o enorme shuriken estava completamente banhado de sangue.

__Ele finalmente chegou, hein?__ disse o gigante, com uma voz gutural, como se tivesse vindo de um demônio preso em um poço muito fundo. O monstro se virou, e Katsuchiyo viu que Kohana estava no chão atrás dele, em meio à uma poça de sangue, com o seu tórax separado de sua cintura.

__Kohana!__ gritou Katsuchiyo, enquanto os soldados do Shogun seguravam seus braços com força.

Nesse momento, o gigante começou a rir, com uma gargalhada que gelou o sangue de todos os presentes. Katsuchiyo podia ver o seu rosto agora, uma visão impressionante. O gigante tinha toda a pele do rosto esticada pela estrutura de metal que estava presa em seu crânio e no lugar dos seus olhos, ele tinha uma placa de metal presa fortemente em suas têmporas. A criatura não tinha lábios,eles tinham sido arrancados e estavam presos na estrutura de metal através de tiras de ferro. Sua voz vinha de dentro de seu ser, como por mágica, mesmo quando seus dentes revestidos de metal não se moviam.
Katsuchiyo ficou cego de ódio e desespero. Ele mordeu um dos braços do soldado que estava à sua esquerda e agarrou sua katana. Em um movimento veloz e elegante, ele girou o corpo decapitando os três soldados que estavam em torno dele. Mesmo depois de meses sem pegar na espada, os ensinamentos de Makura Kiosho guiavam sua fúria. Os quatro soldados restantes avançaram, mas Katsuchiyo desviou-se facilmente de seus ataques, cortando o primeiro do umbigo em direção à sua cabeça, decapitando o segundo e cortando a cabeça do terceiro pelo meio. O gigante estava impassível, e aguardava o ataque de Katsuchiyo.

O samurai aproveitou o embalo das últimas mortes e pulou em cima do gigante, girando seu corpo no ar para decapitar o monstro, que não fez nenhum movimento para evitar o golpe. Sua katana entrou pelo pescoço do gigante, batendo com um estrondo metálico em no osso que de sua garganta. O gigante gargalhou e segurou Katsuchiyo pelo pescoço. Ele aproximou o samurai de sua face grotesca, e Katsuchiyo sentiu um cheiro horrível de podridão vindo de sua pele. O monstro disse:

__Essa minha viagem até essa vilazinha miserável valeu a pena, Uragimono. O Shogun honrou seu trato comigo, de todos ex-samurais que recolhi em minha viagem até ao seu mundo nojento, você é o mais extraordinário. Mas não é páreo para um Nor, como eu, imbecil. Vai ser uma ótima adição para o meu time de Necrobol, verme mortal! Você será um sucesso nas arenas de Necropia.

E antes que Katsuchiyo pudesse reagir, uma agulha saiu do centro da mão do gigante e injetou um veneno esverdeado na garganta do samurai. E à medida que Katsuchiyo sentia seus membros sendo paralisados, o monstro encostou em sua orelha e a arrancou com uma mordida. Depois de engolir, ele murmurou:

__Não se esqueça, meu nome é Caronte, e você agora é meu escravo…
* * *
Katsuchiyo fora levado para Necropia, a Terra dos Mortos. Mais tarde ele soube que Caronte tinha ido até Kriptus para arrumar ilegalmente guerreiros para compor as “barreiras” do seu time de Necrobol, os Mutiladores de Messalina. Essa prática era considerada ilegal pelas leis que regiam as Necrópoles, e Caronte teve que colocar todos os escravos que conseguira á leilão. Todo carregamento foi comprado pela maior rival de Caronte, Verótika, a estrela dos Degoladores de Yzael, o time de Necrobol mais popular da capital do reino de Zohar. A Nor, uma belíssima mulher de pele pálida, olhos completamente negros, longos cabelos vermelhos e com agulhas, ganchos e correntes presas em suas partes mais sensuais, se interessou por Katsuchiyo. e foi ela que, ao ver o ódio que Katsuchiyo sentia por seu captor, propôs ao samurai uma troca: a sua vida pela vingança que ele desejava.
* * *
Caronte se aproximava de Katsuchiyo. O gigantesco Nor estava com a sua Kadasha, que era o nome do gigantesco Shuriken, uma arma comum dos guerreiros de elite de Necropia. Ao ver Katsuchiyo em meio aos guerreiros da barreira, Caronte gritou:

__ Você é meu, verme!__ e com um movimento do seu braço, ele lançou a Kadasha em direção à “barreira”.

Os primeiros guerreiros que estavam na frente de Katsuchiyo não tiveram sorte, sendo cortados na altura da cintura pela Kadasha. A arma, que girava em uma velocidade impressionante, ainda cortou o braço de um companheiro que estava ao lado do samurai antes de chegar nele. Katsuchiyo se desviou, agachando, enquanto a sua espada continuava em sua transformação. Verótika tinha lhe dito que aquela era uma espada mágica, feita pelos maiores inimigos dos Nors, os Primevos. Ela tinha lhe dito que os Primevos eram como demônios da vida, e que representavam as forças caóticas que resistiam ao avanço da morte em Necropia. Katsuchiyo não entendera nada do que ela falava, mas apenas se interessou em um detalhe. Aquela arma era capaz de matar um Nor.

A Kadasha fez um círculo em torno de Katsuchiyo, destroçando completamente os demais guerreiros da “barreira” antes de rentornar para as mãos de Caronte. O Carregador, um Nor com pernas fortes e deformadas, adaptadas para a velocidade, levava a Bola de Espinhos correndo atrás de Carone. Assim que ele viu que a barreira foi toda destroçada, o Carregador passou ao lado de Katsuchiyo e foi em direção ao gol, uma enorme caveira de metal com a boca aberta, que estava a vinte metros das costas do samurai.

A espada já tinha completado sua transformação, e Katsuchiyo viu que carregava algo monstruoso. A Kumarblade, como Verótika chamava a espada, era quase do tamanho do samurai. Ela tinha uma criatura de pele negro esverdeada em sua base, que envolvia toda a bainha. Um olho demoníaco se abriu em um dos lados da criatura, e Katsuchiyo viu que ela tinha tentáculos que se enroscavam ao longo da lâmina. Dois tentáculos diferentes, com anéis ósseos em toda a sua extensão, saíram da base da bainha e entraram pelo seu pulso adentro, rasgando tecidos e se enroscando nos ossos e nos músculos do braço direito de Katsuchiyo. Verótika disse que apenas os Kumarianos, o povo-simbionte aliados dos Primevos, sobreviviam à Kumarblade, mas ela disse que os poucos minutos que Katsuchiyo tinha de vida seriam o suficiente para sua vingança. Katsuchiyo sorriu. Ele morreria como um samurai.

Sentindo uma enorme infusão de força e energia em seu corpo, Katsuchiyo deu um gigantesco salto em direção ao Carregador dos Mutiladores de Messalina, girando o corpo no ar como um furacão. Caronte, cuja Kadasha estava novamente em sua mão, girou o corpo e lançou novamente o gigantesco disco-estrela de metal em direção a Katsuchiyo. O samurai, alertado pelos sentidos ampliados fornecidos pela Kumarblade, deu mais um mortal no ar, desviando-se do ataque de Caronte. O Carregador, que corria com a Bola de Espinhos concentrado em ir em direção ao gol, não viu Katsuchiyo descendo sobre ele como uma tempestade assassina. O samurai girou a massiva Kumarblade e, no momento em que o Carregador olhou para cima, alertado pela sombra criada pelo corpo de Katsuchiyo, a espada partiu seu crânio, seu pescoço e seu tórax em duas partes. A Bola de Espinhos caiu pesada no chão, junto com as partes do corpo do Carregador. Apesar do dano, os membros mortos-vivos do Carregador ainda mexiam. Porém, uma gosma energética esverdeada brilhava nos locais do corte, e iam devorando o Nor. Em poucos segundos, os membros pararam de se mexer.

Caronte parou de correr e olhava surpreso para a cena. Ele pegou a Kadasha no ar com seu enorme braço direito, virou-se para a Tribuna Real e gritou:

__UM SHEM CARREGANDO UMA ARMA KUMARIANA! PEÇO ANULAÇÃO DO JOGO!

Porém, o Imperador Thaumiel, que estava junto com a família real e os Magistratos permaneceram impassíveis. A multidão urrava de excitação. Uma forte voz feminina surgiu saindo do Labirinto.

__Não adianta Caronte. Eles não irão fazer nada. Essa é a sua punição por traficar escravos ilegalmente. Todas as casas de Mercadores de Escravos estão apoiando secretamente essa punição. Seja um Nor e enfrente esse reles Shem. Se você vencer, eu deixo você marcar o gol, ok?

Caronte olhou para Verótika com desejo de estraçalhar a desgraçada. A vadia tinha preparado tudo para acabar com seu time. Ele tinha falhado como capitão, e pelo visto, com os demais jogadores de Verótika saindo ilesos do labirinto, seus demais companheiros de equipe tinham sido destruídos. Mas ele ainda tinha uma saída. Acabar com o verme que estava na sua frente. Com ou sem uma Kumarblade, ele seria capaz de destroçar aquele Shem antes que ele pudesse fazer alguma coisa. Afinal, ele era Caronte, um filho orgulhoso da Linha de Sangue Barlith. Sim, ele venceria esse verme, e depois seria a vez de Verótika. Vou arrancar a sua cabeça na frente da família real!

__Vamos verme, o que você está esperando!__ gritou Caronte, correndo em direção à Katsuchiyo. Caronte girava a Kadasha em sua mão direta, transformando a arma em uma serra giratória de alta velocidade. Em sua mão esquerda, o gigantesco Nor acionou a sua garra envenenada, a mesma que usara para paralisar Katsuchiyo. O samurai, ao invés de ir em direção ao Nor, adotou a mais tradicional postura de defesa do seu estilo de luta e aguardou o ataque de Caronte, concentrando todo o ódio que sentia na lâmina da Kumarblade.

Caronte atacou, desferindo um golpe circular com a Kadasha em direção ao tronco de Katsuchiyo. O samurai aparou o golpe com a Kumarblade em uma explosão de faíscas saídas do encontro das lâminas. Se não fosse pela força extra fornecida pela Kumarblade, os braços do samurai teriam sido arrancados devido a enorme força do golpe. Caronte, aproveitando o momento, atacou com a sua mão esquerda, procurando atingir Katsuchiyo com a garra envenenada. Antecipando ao seu movimento e tirando vantagem da diferença de tamanho entre os dois, Katsuchiyo se lançou para baixo, como se estivesse caindo, e deu um rolamento para trás, se distanciando de Caronte. Antes que o Nor reagisse, Katsuchiyo deu um gigantesco salto por cima do Nor, e girando o corpo violentamente, atingiu Caronte no pescoço, da mesma forma que fizera em Kriptus. E mais uma vez, a lâmina parou nos ossos metálicos do gigantesco Nor.

__Idiota! Sou um Barlith, verme! Temos ossos revestidos do aço mais duro de Necropia, ninguém jamais decapitou um Barlith! Agora é hora de você morrer, vermezinho!

Katsuchiyo insistia com a Kumarblade presa na garganta do Nor. Ele estava atrás do Nor, seguro pela espada cravada na parte de trás de seu pescoço e com os pés apoiados em suas enormes costas. Ele não podia falhar novamente. Caronte moveu o braço para trás, com a Kadasha girando rapidamente, em direção ao tórax do samurai.

__MORRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!__gritou Katsuchiyo.

Nesse momento, os tentáculos que estavam presos na base da Kumarblade se projetaram para fora, enroscando-se em torno do pescoço de Caronte. O tentáculos apertaram com uma força impressionante, forçando a lâmina a atravessar completamente os ossos metálicos do Nor. Ao mesmo tempo em que a cabeça de Caronte era arrancada, a Kadasha cortou parte do tórax de Katsushiro, fazendo-o soltar a Kumarblade. A cabeça de Caronte caiu ao chão, e enquanto ele gritava, ela foi consumida pela gosmenta energia esverdeada que brilhava nos locais do corte. A voz de Caronte foi sumindo, deixando um silêncio em toda a arena. A multidão, impressionada pelo raro evento de um Nor sendo destruído por um Shem em uma partida de Necrobol observava incrédula. Verótika se aproximou do samurai, que se esvaía em sangue no chão da arena. A bela Nor se abaixou e colocando a cabeça de Katsuchiyo em seu colo, disse:

__Parabéns meu escravo…Você cumpriu o seu papel. Olhe, todos estão surpresos com você. Todos estão esperando a decisão do Imperador quanto ao seu destino, samurai.

Nesse momento, o Imperador Thaumiel se levantou na tribuna. Suas enormes asas feitas de pele humana e metal se estenderam. Ele estendeu o braço e fechou a mão, levantando apenas o polegar. A multidão aguardava ansiosa. Depois de uma pausa dramática, o imperador girou a mão, direcionando o polegar para o chão. Katsuchiyo sabia exatamente o que significava aquele símbolo: o seu destino era a morte. A multidão explodiu em celebração.

__Kohana…__ balbuciou o samurai, fechando os olhos…

* * *

Semanas depois, os Degoladores de Yzael voltavam a jogar, agora no campeonato mundial de Necrobol. Times dos mais distantes Reinos tinham enviado caravanas para Yzael para as primeiras partidas e todos comentavam sobre a decisão do campeonato nacional e sobre o fim dos Mutiladores de Messalina. E na primeira partida dos Degoladores, um dos jogadores foi mais ovacionado pela multidão do que a capitã Verótika. Era Katsuchiyo, agraciado com a maior graça que o Imperador Thaumiel poderia conceder à um Shem: ele agora era um Nor, um morto-vivo da elite de Necropia, a Terra dos Mortos.

Katsushiro, que teve a sua cabeça implantada no gigantesco corpo que tinha sido de Caronte, se resignava ao seu destino imortal. Ele agora era uma das estrelas das terras dos mortos. Ele era agora um imortal. E novamente, seu suicídio tinha sido recusado pelo Imperador. A única coisa que lhe restara era jogar Necrobol da melhor forma que podia.

Quem sabe um dia, voltar para Kriptus e capturar um samurai para fazer parte da “barreira” de seu time.

Escrito por Newton “Nitro”
Publicado na revista D20 Saga nº3.
“Kriptus” é uma criação de Cláudio Muniz.

MUNDO DE NECROPIA

Kadasha – Uma das armas mais terríveis de Necropia. Trata-se de uma enorme disco de metal em formato de uma estrela de quatro pontas, com as bordas extremamente afiadas. O metal é tratado alquímicamente para ser praticamente inquebrável, mas por serem muito pesadas (cerca de oitenta quilos), elas só podem ser usadas por guerreiros muito fortes. Elas são usadas como armas de mão ou são arremessadas a distância. Algumas Chadashas são mágicas, retornando para a mão do lançador logo depois de arremessadas.

Kiosho – Principado de Kriptus.

Kriptus – Império da Magia, situado no Mundo de Tron. Um dos locais onde os Mercadores da Morte de Necropia fazem a sua “colheita” de escravos.

Ktonor – Também conhecido como o Olho do Vazio, é o nome do buraco negro que devora o sol de Necropia. É também a fonte de poder dos Nors e de todas criaturas não-vivas de Ereth.

Linha de Sangue Barlith – Uma das Linhas de Sangue dos Nors, que são variações dos Nors Primordiais, os primeiros não-vivos criados pelos Sefiras, os deuses de Necropia.

Necropia – Ou Ereth, A terra dos mortos, um mundo onde os deuses (os Sefiras) resolveram se vingar dos vivos e deixar os mortos governarem à seu bel prazer. Controlada por um tipo especial de mortos-vivos, os Nors perseguem os vivos (os Shems) para usarem como escravos, comida ou peças de reposição para seus corpos eternos.

Nors – Os mortos vivos de Necropia. Os Nors são muito diferentes dos mortos-vivos comuns. Eles são completamente inteligentes, possuem pele alva e olhos negros com pupilas brancas. São imortais; porém dependem da energia necrópica que é emitida por Ktonor, o buraco negro que devora o sol de Necropia.

Yzael – O nome da capital de Zohar, o principal reino de Necropia.

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8 comentários

  1. Muito bom. Bem que você podia postar mais contos, para quem não pôde acompanhar as revistas em que eles foram postados originalmente.

    até mais.

  2. Eu curti bastante o conto, deu pra ver parcialmente (até pq o conto é de 2004) as dicas que você tem passado nos videos e posts sobre internalizações, flashbacks, composição de cenas, etc. Ficou doidimais e o protagonista teve um destino bem interessante o qual não falarei aqui para não dar spoiler. Além disso a ilustração ficou legal (mas se nào fosse por ela, seria dificil imaginar o penteado do samuraiXD). E é isso ai, buscarei ler mais contos e já fico ansioso pelo Marca da Caveira.

  3. Putz, eu li e esqueci de comentar! Ainda não me acostumei com a ideia de fazer isso sempre. XD

    Apesar de ter sido um conto muito sumarizado, o clímax foi bem visual. Gostei, muito legal. E é de dez anos atrás! Mas dá para sentir o seu progresso lendo os textos mais atuais.

    Sobre o Necropia, eu não sou dessa época. Comecei a acompanhá-lo, eu acho, na época em que você estava mestrando alguma coisa no cenário Forgotten Realms, o nome da postagem era Combate na Torre Negra (ou Torre do Cristal Negro, vá lá. Pesquisei isso no google agora, foi bem nostálgico). Lembro-me de uma outra citação sobre o cenário (Necropia), mas nunca me aprofundei muito no assunto. Tomara que os romances sejam autoexplicativos, eu faço parte do público leigo.
    Fico no aguardo de novos artigos sobre a sua literatura e sobre qualquer outra coisa que você quiser compartilhar.

    • Muito obrigado Marcus! Estou ralando para melhorar sempre, espero que você goste do Marca da Caveira, o primeiro livro da Trilogia Legião. 🙂 Quanto ao Necropia, os livros serão auto-explicativos sim, ou eu não estarei fazendo meu trabalho de escritor direito! 😀

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