Uma das melhores maneiras de aprender a criar metáforas, símiles e descrições poéticas é através da leitura da poesia. Com “Os Sonhos Mortos”, sempre que possível, vou postar poesias interessantes aqui no Nitrodungeon, principalmente as escritas em português! Espero que gostem!

OS SONHOS MORTOS
Guilherme D’Azevedo ( publicado em Alma Nova, Lisboa, 1874)

Embora triste a noite, a vagabunda lua
Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
Igual a uma donzella ingenua e toda nua
No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

O mar tinha talvez scintillações funestas.
A praia estava fria, as vagas davam ais;
Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
Fantasmas ao galope em monstros colossaes.

E eu vi n’um campo immenso, agreste e desolado,
Immerso no fulgor diaphano da luz,
Juncando tristemente o solo ensanguentado
Sinistra multidão de corpos semi-nus!

Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
Deposto em cada fronte um osculo brutal;
E um ironico rizo ainda em muita boca
Se abria, como a flôr fantastica do mal!

E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
Em sagrada nudez!… Cabeças decepadas!…
Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!…

E sobre a corrupção das brancas epidermes
Luzentes de luar e d’esplendor dos ceus,
Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
Da santa formosura os ultimos Romeus!

Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
Memoria das vizões que amaste com fervor
Ahi as tens agora alimentando as ervas
De novo dando á terra o que ella deu á flôr!

São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
Que em pasto dão seu corpo a novos corações!

São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
As chymeras gentis, os vagos ideaes,
Que de rozas cingi, que illuminei d’estrellas,
E que não podem já da terra erguer-se mais!

___________________

Guilherme_de_azevedo

Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (Santarém30 de Novembro de 1839 – Paris6 de Abril de 1882) foi um jornalista e poeta português.

Ligado à “Geração de 70“, foi um dos representantes da poesia revolucionária introduzida no país por Antero de Quental (“Odes Modernas“, 1865), tendo recebido influências ainda dos franceses Vitor Hugo e Charles Baudelaire.

Filho de um escrivão das Finanças, desde a infância mostrou-se fisicamente débil, como resultado de uma queda que o fez coxo e lhe provocou uma lesão de que viria a morrer prematuramente aos quarenta e dois anos de idade. Viveu, por essa razão, obcecado por esconder os seus males físicos.

Em 1871 fundou em Santarém o periódico “O Alfageme“, primeiro momento da sua carreira jornalística e onde defendeu, com escândalo no país à época, as ideias revolucionárias da Comuna de Paris.

Após o falecimento do pai, instalou-se em Lisboa, onde abraçou definitivamente o jornalismo, profissão na qual atingiu posição relevante. Trabalhou nos periódicos “Diário da Manhã“, “O Pimpão” e em “A Lanterna Mágica“. Colaborou no “Primeiro de Janeiro” com um folhetim semanal, bem como no jornal O Panorama1 (1837-1868) e nas revistas A Mulher2 (1879), Ribaltas e gambiarras3 (1881) e Jornal de Domingo4 (1881-1883), e ainda naimprensa brasileira. Como poeta, foi um autor representativo, abordando temas modernos numa escrita de índole épico-social. Publicou os primeiros versos no “Almanaque de Lembranças” de 1864, sob o pseudónimo de “G. Chaves”, vindo a colaborar posteriormente em vários periódicos, como o “Comércio de Lisboa“, a “Revolução de Setembro” e a “Gazeta do Dia“, onde, em parceria com Guerra Junqueiro, manteve as crónicas humorísticas da rubrica “Ziguezagues”. Fundou o O António Maria.5 em 1879 com Rafael Bordalo Pinheiro, e, ainda ao lado deste, dirigiu e colaborou no “Álbum das Glórias“. No mesmo ano, novamente com Guerra Junqueiro, redigiu a sátira teatral “Viagem à roda da Parvónia“, que seria pateada e proibida, mas que Ramalho Ortigão considerou uma “fiel pintura dos costumes constitucionais” do país à época.

Em 1880, em consequência da fama conquistada como cronista mundano e político, o periódico carioca “Gazeta de Notícias” nomeou-o seu correspondente em Paris, função que desempenhou nos dois últimos anos da sua vida.

As suas poesias, reunidas nas três colectâneas “Aparições” (1867), “Radiações da Noite” (1871) e “Alma Nova” (1874), encarnam o novo realismo satírico de inspiração baudelairiana no país.

Com o pseudónimo “João Rialto” deixou vários escritos com elevado humorismo.

Obras:

  • Aparições, 1867 (poesias);
  • Radiações da Noite, 1871 (poesias);
  • Alma Nova, 1874 (poesias); – Texto Completo Online!
  • Viagem à roda da Parvónia, 1879 (comédia).
Anúncios