Eu concordo com Orson Scott Card (um dos meus gurus como escritor) que as quatro qualidades que degine a grandeza de um livro de ficção seriam as seguintes:

1) Clareza na escrita

2) Personagens memoráveis

3) Abordar questões morais e filosóficas universais

4) Passar para o leitor uma experiência completa da cultura e do mundo onde se passa, e fazer os leitores sentir e empatizar com essa realidade, não importa o quão distantes no tempo ou no espaço estejam os leitores.

E Steven Erikson em sua saga Malazan, constantemente, livro após livro, acerta em cada um desses pontos. É um grande feito literário, e é uma pena, por causa da complexidade da obra, ele não seja mais lido.

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Com o avanço dos volumes, fica cada vez mais difícil fazer uma resenha sem entregar revelações (spoilers) da trama. Quem quiser conhecer mais a saga, pode ler minhas resenhas, e até um Nitrobooks (vídeo) que fiz sobre a série Malazan, nesses links abaixo:

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Mesmo tentando não dar spoilers, vou tentar passar minhas impressões de Toll the Hounds, que é, dentre os livros da série Malazan, o que mais divide os fãs (muitos consideram o melhor livro da saga e outros o pior livro da saga).

“Toll the Hounds” nos leva de volta para onde a série começou, a cidade de Darujhistan, o palco do fantástico “Gardens of the Moon”. É uma tática que faz parte da escrita de Steven Erikson, a narrativa elíptica, retornando nos mesmos temas, personagens, lugares, mas com perspectivas diferentes, variações de tom, tema, emoção, etc. É uma técnica literária que cria uma das características mais importantes em qualquer obra de arte, “ressonância temática”, o retorno em diversas formas e facetas dos temas da narrativa. É a ressonância que fica em nossas memórias de uma narrativa, aquela impressão emocional forte de uma narrativa. E nisso Steven Erikson é um mestre, lê-lo é uma aula de ressonância, é uma demonstração do poder da poesia e dos efeitos poéticos dentro da prosa.

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A narrativa de “Toll the Hounds” é um reencontro com personagens famosos da saga (que andaram sumidos nos volumes anteriores)e detalha com mais clareza a cidade de Darujhistan. A sensação que tive é de um adeus à cidade que iniciou a saga Malazan, e esse adeus tinge a narrativa com uma melancolia, que, no meu caso, me fez ler até com mais atenção, por causa daquela sensação de que seria a última vez que veria muitos desses personagens e paisagens. Nunca um livro fez isso comigo, e fiquei impressionado com esse efeito criado pelo Erikson.

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O livro, antes das suas últimas e apocalípticas cem páginas, tem um ritmo mais lento do que os demais, com Erikson desenvolvendo muitas narrativas paralelas para pintar um mozaico cada vez mais detalhado dos habitantes do mundo de Malazan. É um livro denso, e até mais do que os outros livros da série Malazan, composto de diversos livros misturados em um tomo de 1.200 páginas. Histórias de órfãos pobres se misturam com narrativas épicas de deuses, imortais, campeões invencíveis. O dia a dia mundano e violento de Darujhistan se mistura com desastres apocalípticos de dimensões inteiras, aventuras de um grupo de mercadores interdimensionais, o avanço de um culto lovecraftiano a um deus agonizante que enlouquece toda uma população com seu sangue, e por aí vai. Vários livros em um só, várias histórias, vários dramas. E tudo muito bem escrito, ressoando tematicamente, e com direito a arroubos literários (como o mergulho na mente de um boi de carga).

Toll the Hounds (SFBC)

O final do livro e de sua convergência (o padrão básico das histórias de Malazan, quando poderes impressionantes se convergem em uma batalha final) é o mais apocalíptico e épico até agora, e tenho até medo do que vai acontecer dos últimos dois livros da saga!

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Mesmo com a miríade de histórias paralelas e que se entrelaçam TODAS no final, o tema do livro unifica a obra. Enquanto nos outros livros Erickson abordou mais a tragédia e a elegia, Toll the Hounds é claramente um livro sobre redenção. Todas as narrativas abordam a redenção de uma maneira ou de outra. E na melhor maneira de Erikson, nos confrontamos com todos os tipos e sabores da redenção, redenção que fracassa, redenção ilusória que leva a um novo estado de catividade, redenção absoluta mas com a negação do eu, redenção emocional que tira algo essencial da alma, o terror absoluto que uma redenção trás, por significar a morte do que se conhece, etc.

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Fica a recomendação, essa é uma série para ser lida e relida várias vezes. E vamos que vamos para Dust of Dreams, o volume 9 dessa saga doidimais!

Toll The Hounds: The Malazan Book of the Fallen 8 by Steven Erikson Toll The Hounds: The Malazan Book of the Fallen 8 

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