E com Chained God, minha jornada pelo mundo de Malazan, pelo menos por agora, se encerra. E que jornada! Dez volumes, dez livros imensos, cada um com quase mil páginas, uma infinidade de narrativas, elocubrações filosóficas, momentos impressionantes de explodir o cérebro, tramas complexas e cheias de reviravoltas, e narrada pelo ponto de vista de mais de quinhentos personagens!

E tudo com um final mega-apocalíptico doidimais! Sem querer dar spoiler mas vou deixar apenas três palavras: “chuva de dragões” véééio! Doidimais!


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Malazan, The Book of the Fallen é uma saga impressionante.Stephen Erikson é um monstro de escritor, um escritor a moda antiga, daqueles que se isolam de tudo e escrevem sem parar, criando seus mundos com um projeto filosófico por trás. A minha sorte foi que Erikson escolheu a forma e a estrutura da literatura de fantasia para criar sua obra, que, ao meu ver, não deixa nada a desejar às obras da chamada “alta literatura”.Chapter2-Bridgeburners

Com uma visão completa de toda a obra, do alto da leitura dos dez volumes, percebo uma repetição de temas constante em toda a saga Malazan. Mesmo tratando de um mundo de fantasia distante e complexo, mesmo tratando de raças diversas, criaturas imortais, deuses, seres com centenas de milhares de anos, Malazan aborda todos os aspectos da condição humana. Nada fica de fora, o egoísmo, a angústia existencial, o papel do amor e das ambições, o sofrimento e a agonia da solidão, a terrível ligação entre guerra e civilização, a corrupção quase que necessária da humanidade à medida que se afasta das suas origens selvagens, etc.

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Ou seja, os Caídos “os Fallen” do título “Malazan: The Book of the Fallen” é a própria humanidade, em sua incontável e infinita variedade de experiências humanas, as infinitas maneiras de se viver a vida.

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Em uma resolução que diria pós-moderna ou pós-estruturalista, Erikson sustenta a idéia de que cada vida humana, cada experiência de consciência é uma forma de criação pessoal de significado em cima de uma realidade que, em sua última instância, não está lá, não possui nenhum tipo de essência palpável, nenhuma verdade intrísica além da sua vacuidade. O olhar cria a realidade, o olhar projeta o que é a realidade dentro do breve instante da existência desse olhar.

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O único acesso que os personagens da saga Malazan possuem da verdade são interpretações, projeções pessoais do que realmente aconteceu. Esse modo desconcertante de abordar uma narrativa, como algo passível de mudança de acordo com o ponto de vista, sem nenhuma forma concreta de se basear uma interpretação, é um elemento que Erikson trouxe da alta literatura (principalmente a dita pós-moderna)para o gênero da fantasia.

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O volume final não fechou todas as narrativas paralelas, nem resolveu todos os mistérios colocados nos dez livros, mas, pelo menos ao meu ver, deu resolução emocional para a saga. E essa é mais uma lição de Erikson, resolução emocional é muito mais importante do que qualquer outra coisa, a experiência de se estar vivo é emocional, o que sentimos em relação a nossa vida é a fonte do significado dessa vida, muito mais do que qualquer racionalização.

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7 COISAS QUE APRENDI LENDO A SAGA MALAZAN!

1)Usando a Emoção para dar Realismo Psicológico na Fantasia

Fantasia é ilimitada, e deve sempre forçar a imaginação dos leitores. Erikson expande as expectativas dos leitores do gênero, criando personagens interessantes dentro de parâmetros impossíveis mas mantendo um realismo psicológico profundo e complexo. O segredo, ao meu ver, é sempre criar ligações emocionais entre as experiências desses personagens impossíveis com a existência humana. Erikson usa das emoções como ferramenta humanizante de seus personagens, sejam eles um reles mendigo de rua ou um deus com milhões de anos nas costas.

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2) Personagens tem que mudar de acordo com os acontecimentos.

Os personagens de Malazan mudam radicalmente durante as narrativas. Seus arcos dramáticos são radicais, e os eventos em que participam deixam marcas, cicatrizes, alteram sua visão de mundo, os fazem ver algo antigo com novos olhos, ou ver algo novo com olhos antigos, etc. A lição aqui, ao meu ver, é que personagens tem que ser dinâmicos, tem que mudar, errar, questionar, sentir culpa e tentar a redenção ou se jogar em uma rota de auto-destruição, etc.

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3) Conhecimento antropológico e arqueológico como fonte de criatividade e realismo para a literatura de Fantasia.

Steven Erikson tem formação acadêmica em antropologia e arqueologia. Antes dele se tornar um escritor, ele chegou até a trabalhar como arqueólogo. Esse conhecimento mais técnico sobre o passado da humanidade, sobre como se deu a evolução da civilização humana, se reflete na saga Malazan pelo realismo na construção e descrição do comportamento das diversas culturas, especialmente as culturas ditas “bárbaras”. O segredo do Steven é criar paralelo, entre a formação e evolução das culturas primitivas do nosso mundo com as tribos que habitam o mundo de Malazan.

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Malazan é totalmente fictício, não existe uma relação direta entre as culturas descritas nos livros com as culturas do passado do nosso mundo, mas a estrutura da evolução dos povos em Malazan segue claramente, e dentro das peculiaridades das raças descritas, a estrutura e evolução dos povos primitivos da nossa história. E mesmo em sua descrição de raças não-humanas, como um povo réptil, a organização e a evolução dessas culturas respondem as pressões ambientais e biológicas enfrentadas pelos povos primitivos da nossa história.

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A importância do passado, da história na conformação dos diversos povos da saga também reflete um conhecimento profundo em arqueologia. Cidades, regiões, tribos, deuses, tudo na saga Malazan está imerso em história, em significação.

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E ao mesmo tempo, em bom estilo pós-moderno, essa mesma história é questionada e muitas vezes revelada como uma ilusão, como uma narrativa criada pelos vencedores dos conflitos passados.

4) Conflitos baseados em Visões de Mundo Diferentes.

Como parte do pacote pós-moderno da saga Malazan está a definição dos conflitos da saga como choques entre visões de mundos diferentes. Não existem vilões nem mocinhos, mesmo que, dentro do ponto de vista dos personagens, existam vilões e mocinhos. Erikson narra sempre todos os lados de um conflito, colocando o ponto de vista de diversos personagens envolvidos, seja os que tradicionalmente seriam considerados heróis, seja dos que tradicionalmente seriam considerados vilões, e, o mais interessante, revelando os pontos de vistas daqueles que, sem fazer parte de nenhum dos lados, acabam sendo afetados pelo conflito.

Nesse ponto, o universo de Malazan se parece muito com o nosso complexo mundo contemporâneo. Todos os pontos de vistas são relativizados, são jogados uns contra os outros e, é parte do trabalho do leitor, decidir por contra própria onde está a moralidade na narrativa, decidir por contra própria o que é o “certo” e o “errado”. Esse é um dos pontos que mais me fascinou na saga, não existe resposta fácil a essa questão.

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5) O ritmo do texto, o sons das palavras criam ressonância e reforçam o tema.

A escrita de Steven Erikson é um show a parte, no meu ponto de vista. Ele usa o sons das palavras, o modo como os parágrafos se organizam, os temas abordados no começo e no fim de suas cenas como uma forma de conseguir ressonância. Eu diria que Erikson escreve com a sensibilidade de um poeta, o que reforça seu foco na emoção dos seus personagens. Esse cuidado com a forma, com a estrutura do texto o diferencia de muitos outros escritores atuais. É um cuidado que muitos podem considerar até meio fora de moda (apesar da prosa de Erikson ser bem enxuta, nada de floreios exagerados), mas eu curti demais. Gosto muito quando noto que um escritor tem um cuidado especial, não só com a história a ser narrada, mas com o modo e a forma que a história está sendo narrada.

6) Ocultar informações é mais importante do que revelar informações.

Apesar de achar que Erikson exagera as vezes, ler a saga me ensinou a importância do mistério na narrativa de Fantasia, de revelar o mínimo necessário para seguir a trama e deixar que o mistério dos acontecimentos envolva (e enlouqueça) o seu leitor. Um dos efeitos dessa técnica narrativa é a imersão cada vez maior do leitor, pois o desejo de descobrir o que se trata os mistérios insinuados pela narrativa vicia, faz com que se leia compulsivamente. É claro que isso exige mais esforço do leitor e pode espantar uma parte do público, mas Steven Erikson demonstrou várias vezes que não se importa muito com isso. Seus livros selecionam seus leitores, e o que eu posso dizer, depois de ler o último volume, é que uma grande parte, ou melhor, as partes essenciais da saga são reveladas claramente no final. Assim, se você for começar a ler e não estiver entendendo nada,continue lendo que no final tudo será explicado.

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Sim, para ler Malazan é preciso ter fé no santo Steven!

7) O Problema da Complexidade Narrativa

A complexidade narrativa, a escolha de Erikson de narrar uma história por meio do ponto de vista de mais de 500 personagens, pode ser um obstáculo para muitos leitores. É uma pena, porque as diversas micronarrativas contidas dentro da saga são fantásticas. Mas a quantidade imensa de personagens e micronarrativas acaba diluíndo o impacto emocional. Sei que a idéia principal de Erikson foi criar um mundo ficcional tão complexo e diversificado como o nosso mundo contemporâneo, mas essa complexidade evita que Malazan seja mais acessível a grande parte dos leitores.

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Fica a recomendação, a saga Malazan é algo impressionante e seu último volume fez juz ao tamanho de sua história. Devo continuar a leitura dos livros escritos pelo Ian Cameron Esslemont (o co-criador do universo Malazan), 5 romances dentro do universo de Malazan e as novas duas trilogias do Erikson, que contarão parte do passado do cenário. Porque? Porque não consigo mais viver sem Malazan! 🙂

Sim, Malazan é doidimais! 🙂

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