Resenha: Child of God, de Cormac McCarthy – As Raízes da Violência #nitroblog

Cormac McCarthy é um dos autores contemporâneos mais aclamados pela crítica. E não é para menos, você tem que respeitar um escritor que o grande Harold Bloom nomeou como um dos quatro maiores escritores americanos de todos os tempos, junto com Don DeLillo, Thomas Pynchon e Philip Roth.

Eu mesmo babei no The Road, e no impressionante Blood Meridian. Cormac é um escritor para ser estudado e relido várias vezes. Seu estilo é seco e direto ao ponto, mas de uma simplicidade enganadora, dentro da linha do Ernest Hemighway, mas muito, muito brutal.

Um dos meus planos para esse ano é ler todos os livros do Cormac McCarthy. Como eles são densos (cada livro é uma porrada no estômago), vou intercalar com outras narrativas, para digerir melhor o universo das narrativas brutais e selvagens da cultura do oeste americano.

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Child of God é o terceiro livro do Cormac, lançado em 1973. É um livro relativamente curto, cerca de umas duzentas e poucas páginas, mas impecavelmente escrito, uma prosa econômica, sem nenhuma palavra desperdiçada. É quase uma história de horror, descrevendo a vida violenta de um jovem renegado, praticamente um monstro psicopata, no interior do Tennessee durante a década de 60. Assim como nos demais livros do Cormac, é uma história que lida com os efeitos do isolamento extremo, tocando em temas como a perversidade, a selvageria que reside nas profundezas da natureza humana, e a alienação e falta de sentido da realidade, principalmente quando se afasta das estruturas da civilização.

A narrativa é muito violenta e horrenda, e isso vindo de um leitor que está acostumado com literatura de horror. Não é uma história com lições morais, mas uma narrativa complexa que causa uma mistura de confusão, iinquietudee, para mim, prazer literário (além de suspense, o Lester é um dos personagens mais medonhos que já li). Parece que o objetivo de Cormac é incomodar, é abalar as certezas civilizadas de seu leitor. Os detalhes são hiperrealistas, os temas macabros o suficiente para desconcertar o leitor. E ao mesmo tempo, Lester Ballard causa, em algumas cenas, a empatia de um monstro incompreendido, mesmo sendo um personagem deplorável em todos os sentidos. Não é um livro que recomendo para qualquer um, é de virar o estômago mesmo. Fiquem avisados!

Por puro acaso, vi paralelos entre o Child of God e o The Stranger do Albert Camus, que li recentemente. Todos os dois tratam narram a vida de assassinos, tem uma filosofia existencialista por trás, mas o mais bizarro é que a alienação em The Stranger está ligada à condição do homem dentro de uma sociedade civilizada, enquanto em Child of God, a alienação vem de um homem isolado pela natureza selvagem, e pela distância entre seu mundo e as regras e estruturas da sociedade civilizada. Dois extremos que se encontram no estado de alienação de seus protagonistas em relação ao resto da raça humana.

Outra comparação que fiz foi entre Child of God e American Psycho (Psicopata Americano, que virou um filme-meme também) do Bret Eason Ellis, com o primeiro trazendo um psicopata versão da roça e o segundo, um personagem semelhante mas que cresceu dentro do universo dos playboys ricos da Nova York dos anos 80. As narrativas se assemelham muito em tema, principalmente quando os protagonistas entram no “modo de sobrevivência”, à medida que seus crimes começam a ser descobertos.

Cormac tem uma prosa impressionante. Ele não tá nem aí para as convenções de narrativa e de pontuação, mudando entre diversos estilos de escrita, passando de descrições secas para prosa poética e para narrativa em primeira pessoa sem nenhuma indicação. O que é mais medonho é que no final dá para ver claramente a narrativa, como um filme, totalmente cinematográfica.

Esse aspecto cinematográfico, e os efeitos criados com poucas palavras me impressionou muito. Recomendo, aos escritores inciantes, estudarem as cenas desse livro, principalmente a sequência que ocorre dentro de um dos carros das vítimas do protagonista. Fodásico, fodásico, fodásico!

Fica a recomendação. O livro saiu em português com o nome Filho de Deus, pela editora Relógio da Água, em 2013, mas é claro, recomendo ler em inglês! 🙂

filho de deus

E depois dessa parada no Tennessee, comecei a leitura das Crônicas Saxônicas, a famosa saga do Bernard Cornwell (leitura obrigatória para quem escreve fantasia medieval no Brasil, todo mundo já leu o cara por aqui! :).

E simbora para a Northumbria!

PS.: Parece que o Child of God virou um filme pelas mãos do Jamie “inimigo do Spider Man” Franco. Deve ser uma bosta, ainda não assisti, mas pelo menos curti o ator que escolheram para ser o Lester. Olha só o monstro doidimais:

child of god movie poster

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