Quadrinhos: Fun Home de Alison Bechdel, Uma Tragicomédia Familiar. #nitroblog

Alison Bechdel é a famosa cartunista que criou, inicialmente como parte de uma tirinha, o Teste de Bechdel ( http://www.wikiwand.com/pt/Teste_de_Bechdel ) , que questiona se, em uma obra de ficção possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. Esse teste, popularizado pela internet, provoca uma discussão interessante sobre o modo como a mulher é comumente retratada nas narrativas contemporâneas.

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De acordo com a Bechdel, o teste foi inspirado em um ensaio de Virginia Woolf, A Room of One’s Own (Um Teto Todo Seu – http://www.wikiwand.com/pt/Um_Teto_Todo_Seu ), do qual coloco um trecho abaixo:

“Todas essas relações entre mulheres, pensei, recordando rapidamente a esplêndida galeria de personagens femininas, são simples demais. Muita coisa foi deixada de fora, sem ser experimentada. E tentei recordar-me de algum caso, no curso de minha leitura, em que duas mulheres fossem representadas como amigas. […] Vez por outra, são mães e filhas. Mas, quase sem exceção, elas são mostradas em suas relações com os homens. Era estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção, até a época de Jane Austen, eram não apenas vistas pelo outro sexo, como também vistas somente em relação ao outro sexo. E que parcela mínima da vida de uma mulher é isso! “ (Woolf, Virginia. A Room of One’s Own: Chapter 5(HTML:eBook/Multiple) The University of Adelaide Library. University of Adelaide Press. Página visitada em 24 December 2012.)

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Um dos principais problemas, na criação de protagonistas femininas, e que também se estende para a criação de qualquer  de qualquer tipo de personagem, de qualquer sexo, orientação sexual, raça, planeta, etc. é a limitação da caracterização a arquétipos e clichês limitadores, a detalhes superficiais e a funções dentro da trama, ou se definindo de acordo com sua função do que de acordo com sua essência, com sua natureza intrínseca. No caso de personagens femininas, essa “caracterização superficial em função dos personagens masculinos” é pervasiva, até hoje!

Só por isso eu já era fã da Bechdel. E quando soube que a autora do Dykes to Watch For ( http://dykestowatchoutfor.com/dtwof-archive-episode-1 ) uma das mais antigas tirinhas de quadrinhos sobre o universo homossexual feminino americano tinha feito uma graphic novel que ganhou trocentos prêmios de quadrinhos e literatura por todos os lados, eu tinha que ler! 🙂

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FUN HOME, UMA TRAGICOMÉDIA FAMILIAR

A graphic novel de Bechdel mistura quadrinhos, autobiografia (no estilo memorial) e muitas referências literárias narrando a infância e a juventude da autora na área rural da Pennsylvania, focando no seu complexo relacionamento com seu pai.

A narrativa é cativante, gostei muito da arte limpa e econômica de Bechdel, eficiente em passar as emoções complexas da narrativa. E a habilidade dos quadrinhos em unir uma narrativa verbal nem sempre sincrônica com narrativa visual, condensa a narrativa, mesmo passando uma quantidade enorme de informações. Em um quadrinho, se lê o texto, as imagens e o conjunto de imagens e textos (por isso sou contra qualquer comparação entre uma mídia narrativa com outra mídia narrativa, é um esforço inútil, ao meu ver, cada mídia é um universo narrativo em si mesmo, e deve ser apreciada dentro de seu próprio universo).

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O tom da história é, como no subtítulo, tragicômico, como deve ser todo bom memorial. Momentos de ternura, intercalados com muito humor e momentos trágicos e amargos, dentro de uma atmosfera intelectual (os pais de Bechdel eram professores de literatura e escritores, muito ativos mesmo radicados no interior dos Estados Unidos).

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Os quadrinhos narram a vida de Bechdel durante os anos 60 e 70, espelhando as mudanças radicais da sociedade americana com a evolução (ou melhor a desestruturação) do seu ambiente familiar.

A graphic novel é dividida em sete capítulos, cada um lidando com temas particulares de sua infância, principalmente sobre seus dilemas de identidade secual, papéis de gênero, suicídio, e a vida em uma família disfuncional. O mistério formado pelo seu pai, um homem inteligente, emocionalmente distante mas volátil, perfeccionista e narcisista e perfecionista, em conflito com sua própria sexualidade, corre em paralelo com a própria jornada de descoberta da identidade sexual de Bechdel.

Fiquei impressionado e emocionado com a honestidade e a coragem de Bechdel em expor sua vida de maneira tão sincera. As páginas de Fun Home transbordam compaixão, arrependimento, frustrações, falhas de comunicação e amor, o amor que misteriosamente resiste aos conflitos que surgem do paradoxo de lutar para seguir nosso próprio caminho e ao mesmo tempo corresponder as expectativas daqueles que nos criaram.

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Não é uma narrativa fácil, a história da família Bechdel não segue uma cronologia fíxa, e sim uma sequência de revelações, a cada capítulo novos fatos sobre a verdade oculta que lentamente consome a família são revelados, com paralelos literários como Em Busca do Tempo Perdido, de Proust e Ulisses de James Joyce. É um tipo de livro que recompensa leituras mais expandidas (e recebi o “puxão de orelha” da Bechdel, tenho que ler Proust algum dias desses hahahahaha), mas, mesmo sem pegar todas as alusões literárias, recomendo essa graphic novel! 🙂

Fica a dica para alguma editora nacional lançar Fun Home no Brasil. É uma das melhores graphic novels que ja li! 🙂

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Fun Home: A Family Tragicomic by Alison Bechdel Fun Home: A Family Tragicomic

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