Resenha: Agosto, de Rubem Fonseca – Mesclando Gêneros no Romance Histórico #nitroblog

Um dos desafios de se escrever um romance histórico está em como deixar interessante uma narrativa de um período distante do leitor, como criar algum tipo de ponte, algum tipo de identificação para que o leitor se prenda a narrativa histórica por outros motivos além do conhecimento de um outro período.

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A pergunta que todo escritor de romance histórico deveria fazer é “porque o leitor lerá essa narrativa, se ele poderia ter as mesmas informações em um livro de história”? Uma das técnicas para prender a atenção do leitor é a mesclagem de gêneros, usar a estrutura narrativa de um gênero da literatura como uma espinha que sustentará a contextualização histórica. Essa espinha narrativa prende o leitor na sequência de cenas, enquanto ele mergulha no cenário, vivendo a história “por dentro”, o que é a grande vantagem dos romances históricos se comparado com os textos da maioria dos livros de história.

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Comisário Mattos na minisérie da Globo! 🙂
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Carlos Lacerda, o Corvo

Rubem Fonseca, o mestre da literatura de crime brasileira, foi muito feliz ao mesclar a narrativa de crime com os fatos históricos de Agosto de 1954, que culminou com o suicídio de  Vargas. Criando um paralelo entre a história do detetive Alberto Matos, que é uma espécie de pêndulo moral da narrativa, com os acontecimentos que levaram ao fim da Era Vargas, Fonseca joga o leitor dentro do clima desesperado e de fim-de-mundo daquele período.

Técnicas Narrativas em Agosto, de Rubem Fonseca:

O ponto de vista narrativo é de terceira pessoa limitada, mesclado com narrador onisciente muito objetivo (apenas com algumas observações pontuais, mas feitas com o estilo jornalístico do Rubem Fonseca). Demonstrando experiência, Fonseca limita a um ponto de vista por cena, sem “pular cabeças” e confundir o leitor.

A narrativa é bem clara, e os momentos de ponto de vista onisciente servem bem para um romance histórico, ampliando o escopo narrativo e dando uma visão geral do contexto. O interessante é que a mistura com o POV de terceira pessoa limitada permitiu um bom desenvolvimento de personagens como Mattos, Salete (os mais desenvolvidos da narrativa), e arredondou os antagonistas como Chicão, Pedro Lomagno e Pádua.

O interessante é que a narrativa em si da morte de Getúlio corre por fora da narrativa principal das investigações de Mattos, mas, apesar de ter menor foco, é muito bem descrita e trabalhada, alternando POV onisciente com terceira pessoa limitada.

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O livro começa quente, em “in media res” (no meio das coisas – no meio da ação), uma técnica muito eficaz para agarrar o leitor logo de cara, abrindo a história com uma ação dramática ao invés de exposição para apresentar personagens e a situação.

A narrativa, direta e veloz como é o estilo de Fonseca, se foca em torno de planos de assassinato; como o plano de matar Carlos Lacerda no começo, e os vários planos feitos por antagonistas para dar fim ao comissário Mattos.

Uma técnica de exposição (expor o contexto da história para o leitor) bem cinematográfica usada por Fonseca é colocar um personagem lendo notícias no jornal e revelar a situação da narrativa para o leitor de maneira oblíqua, sem forçar a barra. Na terceira parte do romance, Fonseca usa muito de exposição direta mesmo, mas como ele já tem o leitor nas mãos nesse ponto, não tem problema. Engajado pela narrativa, queremos saber mais sobre o contexto histórico, e Fonseca reporta usando linguagem jornalística e objetiva, evitando de colocar opiniões quando escreve em narração onisciente ( o que corre o risco, dependendo da voz narrativa, dependendo da persona do narrador onisciente, de ser rejeitado pelo leitor).

Getúlio e Gregório
Getúlio e Gregório

A narrativa é repleta de cenas do dia a dia e da vida particular do detetive, colocadas para dar mais identificação, desenvolver o personagem, e criar uma sensação de realismo.

Notei um grande cuidado com os detalhes, com as nuances das interações sociais refletindo os valores morais e religiosos, os preconceitos, as crenças, as ideologias, e o racismo presentes no período.

Durante as partes de terceira pessoa, Fonseca trabalha a linguagem dos monólogos interiores, usando o vocabulário e a sintaxe para revelar o caráter dos protagonistas e dos antagonistas. Por exemplo, Gregório e Chicão tem pensamentos bem rudes,  violentos, enquanto Mattos reflete com certa empatia com os bandidos e sente as incongruências e paradoxos dos seu trabalho de detetive.

Fonseca usa de longas cenas de exposição para descrever o complexo contexto histórico do romance, usando de linguagem jornalística de maneira eficiente. Leitores são mais tolerantes com longas exposições em romances históricos, principalmente porque uma das motivações de se ler um romance histórico está em aprender e vivenciar o período abordado. Mesmo assim, a chance de cansar o leitor com cenas de exposição é grande, e nesse ponto, Foseca soube dosar a exposição e concentrar nas partes mais dramáticas e relevantes para a narrativa.

Personagens são marcados com símbolos e características para serem facilmente identificados em uma narrativa com tantos Pontos de Vista diferentes. A úlcera do Mattos, as roupas de Salete, o anel do Chicão, etc. Os marcadores também revelam características dos personagens, por exemplo a úlcera de Mattos é uma representação física da rejeição e sua dificuldade de digerir a amoralidade da sociedade em que está mergulhado, Salete se veste para tentar encobrir seu passado de miséria e prostituição, o anel de Chicão representa sua tentativa de ascensão social mesmo em uma sociedade extremamente racista e estratificada como a do Brasil em 50 e também de sua rejeição ao seu passado miserável, etc.

Fonseca une as narrativas em dois clímaxes, um esperado (o suicídio de Vargas e o caos que acontece depois) e outro inesperado (o final do arco narrativo de Mattos), com um epílogo em uma vingança transversa, uma vingança contra um alvo errado, reforçando mais ainda o senso de injustiça e amoralidade de toda a narrativa. Adorei o final!

Fica  recomendação, Agosto é bom demais, narrativa é empolgante, Fonseca é sempre uma aula de como escrever, e o final é fantástico, anti-holywoodiano e cruel como os contos do Rubão.

O escritor Rubem Fonseca
Rubão – Rubem Fonseca

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E agora, retorno para a literatura de fantasia contemporânea com a série Monarchies of God (Monarquias de Deus), de Paul Kearney, um autor muito elogiado por vários escritores e uma recomendação do Stephen “Malazan” Erickson, e que trata de um conflito entre duas religiões monoteístas em um mundo de fantasia medieval realista, estilão Game of Thrones . Devo intercalar os livros do Monarchies of God com os livros de contos do Fonseca postando as resenhas aqui mesmo. 🙂

E vamos ler porque ler é doidimais! 🙂

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2 comentários

  1. Rubem Fonseca realmente é o autor que melhor traduz a atmosfera noir para o cenário brasileiro, sendo assim um mestre da literatura de crime e, consequentemente, um mestre da ficção brutal, do romance urbano e do estilo pós-moderno (seco, entrecortado, experimental). No entanto, achei que, em Agosto – provavelmente por se tratar de um romance histórico -, Rubem Fonseca foi minucioso demais em algumas passagens, rompendo com o ritmo dinâmico de seus outros trabalhos. Mas ainda assim é um livro que vale muito a pena ser lido.

    Mais uma excelente resenha, Newton!

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