Resenha: Como Funciona a Ficção, de James Wood – Aguçando o olhar de Escritores e Leitores! #nitroblog

Na literatura americana, dentro de sua tradição pragmática, a grande maioria de livros com dicas ou vendidos como guias para escritores tem sempre uma linha normativa, ou “sugestativa”, com mais prático e direto, com máximas, métodos, ferramentas, conceitos básicos e exposição de experiências pessoais dos escritores. Porém, existe uma segunda tradição narrativa de foque mais literário e acadêmico.

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Dessa tradição, cito o Art of Fiction, excelente guia ou ensaio sobre criação literária do John “Grendel” Gardner (e quem sabe algum dia, sai aqui no Brasil, é até mais acessível do que o How Fiction Works – Como funciona a ficção” (Cosac Naify, tradução de Denise Bottmann, 232 páginas).

Nesses tipos de guias para escritores, que são na verdade mais ensaios críticos do que guias, seus autores estão mais preocupados nas perguntas que surgem no ato da leitora e da escrita do que em normas ou até mesmo sugestões. O questionamento da criação literária é o foco principal e assim, ensinam a ler melhor, ou a ler com “olhos de escritor”.

No caso de “Como a Ficção Funciona” (li no original, e sei que a tradutora brasileira enfrentou problemas em relação ao livro, que comendo no final desse texto) James Wood busca mostrar ao leitor o maquinário por trás da literatura do gênero realista (sim, eu considero um gênero, mas não vejo gênero como algo negativo, muito pelo contrário), traçando suas origens, suas técnicas, exemplificando com textos dos seus autores favoritos. De uma maneira direta, sem muito academicismo e linguagem “maionética”, ele examina as técnicas usadas por escritores baluartes como Chekov, Flaubert, Tolstoi, Virginia Wolf, entre muitos outros.

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Wood aborda tópicos como o uso do “discurso indireto livre”, a consciência dos personagens, a realidade na ficção (questões bem antigas no campo acadêmico, mas trazidas de volta de maneira didática e acessível), como avaliar metáforas e símiles, os diferentes registros de tom narrativo, questionamentos sobre o realismo versus a verdade na literatura, o trabalho poético da sonoridade na prosa, a evolução das descrições, entre vários outros.

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Os textos seguem uma estrutura básica, Wood seleciona uma das ferramentas usadas pelos seus escritores favoritos, dissecando-as e revelando como essas ferramentas ou convenções narrativos ficam invisíveis para a maioria dos leitores. O livro traça a evolução dessas convenções narrativas ao longo da história da literatura ocidental. Como um crítico mais conservador, Wood usa obras consagradas e consideradas cânones pela crítica contemporânea.

Wood levanta perguntas interessantes como: O que é realmente um personagem de ficção? O que constitui um descrição bem sucedida, porque o escritor seleciona alguns detalhes específicos e não outros e com que objetivo? Como saber que uma metáfora ou uma símile forma bem sucedidas? Porque os finais de muitos romances são desapontadores?

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O livro também serve como um guia de como fazer “close reading”, ou a técnica acadêmica da “leitura de perto”, analisando as frases detalhadamente, vendo as interrelações das linguagens, conceitos, metáforas, sons, alusões, o ritmo das frases e o ritmo criado pelo sons das palavras, etc. São sugestões muito boas para desenvolver mais a capacidade de leitura e apreciação literária, o que leva a uma escrita mais consciente, mais madura.

O único problema é que o Como a Ficção Funciona aumentou muito a minha lista de leituras essenciais. Além dos baluartes, coloquei na minha lista o escritor favorito do Wood, o Saul Bellow, de tanto que o cara falou dele e pelas citações no texto!

Fica a recomendação, um livro inspirador tanto para escrever quanto para ler, para educar o olhar.

ANOTAÇÕES DO “COMO FUNCIONA A FICÇÃO”

Fiz algumas anotações do chega perto de ser dicas para escritores que pesquei no texto. Mas devo ler de novo em breve, é o tipo de livro para voltar sempre como referência e inspiração para escrever e ler com mais cuidado.

DESCRIÇÕES

Descrições criam uma pausa ficcional, onde a ficção diminui de velocidade para chamar a atenção do leitor para a textura, a superfície, para o ambiente, para a criação de imersão e aumento do realismo cognitivo da narrativa. Mas é um trabalho de equilíbrio, muita descrição transforma os detalhes em fetiche, um fim em si mesmo e um momento de puro exibicionismo literário.

Pausa descritiva serve para chamar a atenção do leitor para algo negligenciado pela pressão narrativa.

A pausa descritiva é usada para mergulhar e explorar as complexidades e a cacofonia do mundano, mas deve ser equilibrada com a narrativa total.

Metáforas e símiles funcionam melhor quando contextualizadas, quando criadas dentro do Ponto de Vista Narrativo, e quando evocam diversas relações dentro do próprio texto.

CARACTERIZAÇÃO

Indo contra a maioria das dicas para escritores, Wood declara que o segredo de personagens bem caracterizados não está em históricos detalhados ou pilhas e pilhas de características físicas, psicológicas, emocionais, etc. O segredo está no modo como o personagem é caracterizado na narrativa, e, o quanto o autor usa de opacidade na caracterização.

Ele rejeita a tradicional a classificação de personagens redondos ou superficiais, preferindo classificar os personagens entre transparentes (personagens simples, que não ocultam nada) e opacos ( personagens que possuem graus relativos de mistério).

Ele cita os personagens de Shakespeare, onde os elementos ou características que explicariam racionalmente seus comportamentes são omitidos da narrativa, criando opacidade estratégica e supreendendo os expectadores com suas ações. Essa técnica os dá vivacidade, a sensação de vitalidade, de imprevisibilidade e o senso de mistério ao se ver de frente a um enigma.

Nesse ponto ele cita Virginia Wolf comentando sobre Crime e Castigo, e o Idiota de Dostoyevsky “Esses personagens não possuem nenhuma característica fixa. Nós mergulhamos neles como se descessemos em uma enorme caverna”.

O segredo, de acordo com Wood, de pergonagens bem caracterizados estaria na sua capacidade de supreender o leitor. Com isso ele recusa a definição tradicional de personagens redondos ou rasos.

SOBRE CRIAÇÃO DE PERSONAGENS NA MENTE DO LEITOR

Nos romances pós-modernos (Pnin do Namokov ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago) o leitor se confronta com personagens que são ao mesmo tempo reais e imaginários. Nessas narrativas, os autores nos convidam a refletir sobre a ficcionalidade de seus heróis e heroínas, que dão títulos às próprias narrativas.

E paradoxalmente, é essa reflexão que faz com que o leitor deseje tornar esses personagens reais, é como se dissessem para os autores: “eu sei que eles são só ficcionais, você está repetindo isso continuamente. Mas eu só poderei conhecê-los tratando-os como se fossem reais.

Personagens bem construídos, são assim porque são bem construídos na mente dos leitores, através dos artifícios literários do autor, através da instigação e da provocação para que o leitor os tornem reais.

O DISCURSO INDIRETO LIVRE

“Quando falo sobre discurso indireto livre eu estou realmente flaando sobre ponto de vista narrativo, e quando eu falo sobre ponto de vista narrativo eu estou relamente falando sobre a percepção do detlahe, e quando eu falo sobre detalhe eu estou na verdade falando sobre personagem, e quando eu falo sobre personagem, eu estou realmente falando sobre “o real”, que é a base dos questionamentos desse livro”.

Existe uma tensão entre a voz narrativa do autor e a voz narrativa do personagem. Essa tensão se resolve no desenvolvimento nos romances do Discurso Indireto Livre, uma técnica que tem em Gustav “Madame Bovary” Flaubert, um dos seus principais propagandistas, um romance que influenciou (e continua influenciando) a prosa dita realista (em todas as suas variações e diversificações).

O discurso indireto livre é quando o narrador desenvolve a história através da voz de um personagem, e ocasionalmente sai desse ponto de vista limitado para um ponto de vista onisciente. Essa alternância entre o ponto de vista parcial e o onisciente é a essência da criação da ficção.

Os leitores sabem que um autor inventou o personagem que estão lendo, mas eles também tem a ilusão de que o personagem existem em algum lugar fora e além da invenção do autor. Os leitores se dividem (na boa prosa), entre o que eles sabem ser falso, e o que eles momentâneamente aceitam como sendo o real.

Personagens bem caracterizados passam para os leitores a sensação que sua liberdade inventada tem sentido, é “real” e os leitores reagem de acordo.

Quando, ao se ler, se chega em uma palavra que sai da voz do personagem (por exemplo, uma história do POV de um mendigo onde aparece um parágrafo descritivo com vocabulário que distoa da linguagem usada pelo POV do mendigo), os leitores se lembram que existe um autor, e que esse autor os permitiu a se misturar com seu personagem.

Esses momentos podem quebrar a imersão no sonho narrativo, e o desafio para o escritor é dar razões para que seus leitores continuem lendo, seja por prazer estético, literário, seja pela trama, pelos mistérios da narrativa, pelos mistérios dos personagens, ou pela capacidade dos personagens de supreender o leitor, entre outras razões.

QUALIDADE DA BOA PROSA

Deve-se ler e escrever musicalmente, testando a precisão e o rítimo da frase, escutando os ecos históricos e literários das palavras, prestando atenção aos padrões, repetições, ecos, símbolos, tropos, decidindo porque uma metáfora deu certo e porque outra fracassou, julgando como a colocação perfeita de um verbo ou de um adjetivo sela uma frase com finalidade matemática.

SOBRE A FUNÇÃO DA FICÇÃO

A ficção deve, através do poder da palavra escrita, fazer o leitor escutar, sentir, ou acima de tudo, ver. Ver a complexidade e os paradoxos da condição humana, sentir a infinita variedade de experiências, de verdades e mentiras, de detalhes e texturas que passam desapercebidas a cada momento, expandir a experiência daquilo que chamamos de vida.

A única obrigação de um romance de ficção é ser interessante, mas sem sofrer a acusação de ser arbitrário.

Diferença entre trama e história é simplesmente uma formulação de causação:

“O rei morreu e então a rainha morreu” é uma história.

“O rei morreu e então a rainha morreu de desgosto” é uma trama.

A literatura se diferencia da vida porque a vida é cheia de detalhes mas raramente nos direciona a ele, enquanto a literatura nos ensina a notar. A literatura nos transforma em melhor observadores da vida, nós podemos praticar na própria vida, nos tornando melhores leitores do detalhe na literatura. Obs: Gostei dessa parte, principalmente depois de ler o Barba Ensopada de Sangue, que me ensinou a como “ver” as cidades praianas brasileiras. 🙂

TEMAS NA FICÇÃO

A ficção é mais efetiva quando seus temas não são tão evidentes, uma ficção ideal teria uma espécie de temas fantasmáticos.

AS FRASES

A frase pulsa, move para dentro e para fora, em direção ao personagem e para longe do personagem. Quando se move em direção do personagem (como no caso do POV profundo, sem nada exterior à cognição do personagem POV) o autor desaparece, quando se move para longe do personagem o autor ressurge com seu estilo para se tornar evidente ao leitor.

Usar o som das palavras, a repetição, a criação de padrões e a quebra de padrões para constituir efeitos literários, técnicas poéticas que engrandecem o texto.

SOBRE O LIVRO

Quando nos movemos juntos com uma história, quando lemos uma história, essa história já está completa – nós a seguramos em nossas mãos. Nesse sentido, a ficção também mata, não porque personagens frequentemente morrem em suas páginas, mas porque, mesmo se eles não morrem, eles já aconteceram, já viveram suas vidas, suas histórias já estão completas. A forma ficcional já é um tipo de morte, todos seus personagens já “foram”, já tiveram suas histórias completas.

ONDE COMPRAR

Loja Virtual da Editora Cosac Naify

Como Funciona a Ficção – James Wood (232 pags.)

Amazon (original em inglês)

How Fiction Works

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4 comentários

  1. Opa! Adorei seu blog, as dicas são ótimas e as resenhas muito bem feitas. Só queria completar dizendo que “A Arte da Ficção” do John Gardner foi publicado em 1997 pela Civilização Brasileira. Tive sorte de comprá-lo quando ainda era lançamento. Apesar de ele estar esgotado na editora, ainda dá para encontrá-lo em sebos virtuais. Obrigado pelo excelente trabalho.

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