Aproveitando o calorzão de Janeiro, e dando uma pausa nas minhas leituras de fantasia contemporânea, resolvi embarcar no que chamei de Festival Doidimais de Contos do Rubem Fonseca, um plano auto-imposto onde leria o maior número possível dos livros de contos do Rubão. Como os livros são mais curtos do que os tijolões de fantasia que costumo ler, reuni minhas impressões dos livros em dois posts.

Se você se interessar pelos livros mas não tem tempo para ler todos, leia Feliz Ano Novo e O Cobrador que já dá para ter uma idéia de quanto o Rubão é fodásico!

Nesse primeiro post coloco o que achei do livros Amálgama (2013), Feliz Ano Novo 1975), Buraco Na Parede (1995), O Cobrador (1979).

o cobrador

Antes uma introdução para quem não conhece um dos melhores autores brasileiros vivos (na minha opinião, é claro).

Rubem Fonseca (Rubão para os mais íntimos) é mineiro de Juiz de Fora, apesar de passar quase toda sua vida no Rio de Janeiro. Ele ficou famoso no final da década de sessenta e início da década de setenta com o livro de contos Lúcia McCartney (1967) e o romance O Caso Morel (1973), mas arrebentou mesmo com Feliz Ano Novo (1975) e
O cobrador (1979).

pequenas criaturas

Como ex-policial e conhecedor do baixo mundo carioca, sua obra se caracteriza pela brutalidade, pelo estilo seco e direto, pela frieza com que descreve a sociopatia urbana, a falta de empatia e lidando, em grande parte, com uma verdadeira fauna urbana de personagens marginais, prostitutas, depressivos, perversos, matadores de aluguel, assassinos, adúlteros, e o que mais se esconde por baixo do tapete da sociedade brasileira ou expostos pela miséria que inunda as nossas cidades. É uma prosa urbana, direta, materialista e cruelmente honesta. Ele é um daqueles raros casos de um escritor que agrada tanto a crítica quanto ao grande público, misturando o pop e o trash com o erudito e o literário.

Rubão - cara de durão, daria um vilãozão no Breaking Bad véééio! :)
Rubão – cara de durão, daria um vilãozão no Breaking Bad véééio! 🙂

Então vamos aos livros de contos do Rubão, depois de cada micro-resenha, coloquei as anotações que fiz à medida que fui lendo os contos atento às técnicas narrativas do mestre.

AmálgamaAmálgama by Rubem Fonseca

My rating: 3 of 5 stars

Uma mistura de contos muito bons com outros mais regulares, porém todos com a marca do Rubão e sua prosa precisa , seca, de socar o estômago. Os temas fonsequianos de sempre, com matadores de aluguel, anões, deformações físicas e morais, psicopatia e uma ausência de empatia nos narradores. Supreendi com a presença de um narrador feminino (o que não é comum nos seus contos) e com a publicação de uma de suas poesias.

Curti muito a volta do Rubão sangue nos zóio, visto que esse livro é um retorno ao crime.

ANOTAÇÕES DE “AMÁLGAMA”

Temas:
Vendas de bebês, umbanda, partos e abortos, amoralidade.

Técnicas Narrativas
Economia narrativa, fala naturalista.

Metanarrativa no conto do escritor. “Escrever é rever”.

Linguagem essencial e corriqueira.

Alguns contos se resolvem no leitor, finais abertos, como o do matador de corretores.

Humor depreciativo. Personagens sem nome.

Joãos Marias e Josés por todos os lados.

Psicopatia e falta de empatia generalizada.

Gozações com clichés.

Referencias literarias a Proust, Machado, Thomas Mann.

Fúria social, ecos do Feliz Ano Novo.

Primeira pessoa com discurso indireto.

Dialogos indiretos misturados com diálogo direto.

Transições de tempo e espaço feitas em uma frase.

Texto com gavetas, áreas onde Fonseca expande o texto com informações extras, de texto com registro enciclopédico, muitas delas surgindo por  por meio de opiniões.

Um conto surpreendentemente narrado por uma mulher, o que não é tão comum na obra do Fonseca.

A maioria dos narradores são masculinos.

Obsessão com corcundas, defeitos genéticos, doenças, uma visão bem naturalista. Seria interessante comparar Fonseca com o Aluísio Azevedo, o autor do Cortiço (1890).

Misoginia, machismo, psicopatia , e até pedofilia sugerida.

Narradores não confiáveis, e muita ironia.

Obsessão com o fisico, com a beleza física, bem dentro da visão machista.

Alguns contos poderiam ser transformados em livros.

Temas do terror causado pela impotência masculina.

Espaço da maioria dos contos é genérico, sem descrição. Os contos acontecem em um mundo urbano brasileiro indefinido.

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Feliz Ano NovoFeliz Ano Novo by Rubem Fonseca

My rating: 5 of 5 stars

Um dos clássicos da literatura brasileira contemporânea e com razão. Feliz Ano Novo é sensacional, uma das melhores livros de contos que já li. Contos variados e criativos, cruéis e fascinantes, um dos melhores trabalhos do grande Rubem Fonseca, e serve como uma excelente introdução ao autor. Não sei nem qual é o meu conto favorito, todos são muito bons e bem variados entre si. E ainda tem a estréia do detetive Mandrake, que seria o protagonista de romances futuros do Fonseca.

Recomendadíssimo, muito gostoso de ler , cruel e até assustador em alguns momentos, tive um choque ao ler o conto de dá o título ao livro, Fonseca tem muito a manha de pegar o leitor de surpresa, seu texto acertando como um boxeador experiente, soltando cruzados de direita quando esperamos um gancho de esquerda.

Recomendadíssimo!

ANOTAÇÕES DE “FELIZ ANO NOVO”

Uma obra prima, primeira aparição de Mandrake, contos fortes e variados, alternando primeira e com alguns em terceira pessoa. Voz forte e criativa, estilo bem seco e pessoal.

Crítica social, angústia social, estruturas cruéis, moral meio nihilista, humor negro, cinismo e ironia. Até toques existencialistas nos personagens.

Contos variados entre si muitombins. Um dos contos possui uma narrativa mais experimental, usando só de cenas curtas, feitas apenas de diálogos e alternando o ponto de vista narrativo de frase em frase, muito legal.

Nesses contos mais aintigos, ele ainda localiza as narrativas em um espaço, no Rio e seus personagens ainda possuem nomes. No Amálgama, é mais a essência, só a natureza humana, sem arvore nem rios, como ele diz no último conto do livro, que é meio metanarrativo.

Feliz Ano Novo é fantástico, um dos melhores livros de contos que ja li, a variedade nos contos é muito grande, e com muita criatividade. E ainda tem a primeira aparição do Mandrake, o detetive mais carioca cafajeste da literatura.

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O Buraco Na ParedeO Buraco Na Parede by Rubem Fonseca

My rating: 4 of 5 stars

Mais um livro de contos na minha maratona Rubem Fonseca, e que livro! “O Buraco Na Parede” é tão impressionante quanto “Feliz Ano Novo”, oito contos muito bons, daqueles que ficam ressoando na cabeça. Transbordando sordidez e cinismo, e temperado de humor negro, é outro livro que serve de introdução à obra do autor.
Todos os contos são muito bons, principalmente o conto que dá o título ao livro, uma história de um voyer que se envolve em uma trama de relacionamentos, ciúmes, taradezas e morte; “O Anão” que lida com adultéio, traição; e o conto do “Balão Fantasma”, muito criativo ao lidar com o submundo dos balões de são-joão do Rio de Janeiro!

Fica a recomendação!

ANOTAÇÕES DO “O BURACO NA PAREDE”

Temas baloes juninos, coisa bem carioca, me lembrei de quase tocar um deles quando era criança no Rio.

Os contos começam a se referenciar entre si. Temas de suicidio, broxada, sexo, excreções.

Técnicas Narrativas : cortar a cena antes de sua conclusão, terminar o conto no meio do arco narrativo, deixando-o incompleto emocionalmente.

Momentos de definições enciclopédicas pelo personagens, onde se definem palavras conceitos ou se introduzem momentos históricos, fatos pictorescos.

Ele tem uma predileção pela primeira pessoa, mas é habilidoso com a terceira pessoa também.

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O CobradorO Cobrador by Rubem Fonseca

My rating: 5 of 5 stars

O Cobrador é outra porrada literária do Rubão, cheio de sexo e violência absolutamente não escapista, e com contos criados para chocar, incomodar, incitar e tirar a sociedade brasileira de sua pasmaceira complacente com a desgraceira que é a nossa existência urbana.

Nesse livro, de 1979, publicado depois do “O Caso Morel” (que preciso ler urgentemente, estou viciado no Rubão), niilismo, ódio social e desconstruções pós-modernas misturadas com cachaça, nunca poupa o leitor do choque. Ou melhor, o conto vai em direção ao trauma, ao choque na mente do leitor.

A maioria dos contos, como é de praxe do Rubão, terminam antes de terminarem, isto é, muitos dos clímaxes acontecem dentro do leitor, depois da história terminada. Várias vezes me assusto com os finais abruptos, cortados como a golpes de facão (o machete brasileiro), o que faz que o conto fique ecoando na cabeça, ressoando, tentando se completar.

Os dez contos são fodas, mas “O Cobrador” é de um impacto absurdo, um manifesto psicótico de ódio social, quase um realismo fantástico pela sequência meio onírica – meio realista, das ações de um sociopata de classe miserável que explode e “cobra” tudo que a sociedade lhe deve a base de tiros e golpes de facão.

“H.M.S. Cormorant em Paranaguá” é outro conto muito legal, e que quebra um pouco estilo do Rubão e narra as impressões de um romântico do século dezenove, um conto justificado por um delírio do narrador. Muito legal!

“O Jogo do Morto”, único narrado em terceira pessoa, sobre matadores e comerciantes cariocas, é muito bom, com uma história fechada e um final daqueles que a gente fala “aha!”.

Todos os contos são muito legais, tem um conto com o Mandrake, o detetive carioca cafajeste doidimais viciado em mulheres e em amores rápidos, entre outros.

Fica a recomendação, mais um clássico do Rubão, no mesmo nível do Feliz Ano Novo, principalmente por causa do fantástico “O Cobrador”.

ANOTAÇÕES DE “O COBRADOR”

Retorna os temas de ódio social, revolta das classes mais baixas, fantasias de vingança.

Contos com finais cortados, criando clímax dentro da cabeça do leitor ao invés de colocar nas páginas.

Diálogos duros, secos, alternando frases curtas com momentos mais extensos, normalmente explicações de definições de palavras ou descrições de preferências, opiniões ou lembranças do passado que explicariam as motivações por trás das ações dos personagens.

Uso de narradores não confiáveis em todos os contos, fruto do uso da primeira pessoa.

Nesse livro os contos pendem mais para a brutalidade, para o niilismo e para a morbidade. Memento mori (a lembrança da morte) permeia todos os contos.

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Pequenas CriaturasPequenas Criaturas by Rubem Fonseca

My rating: 4 of 5 stars

Em Pequenas Criaturas, Rubem Fonseca aventura por cenas prosaicas, por recortes de pessoas comuns, fugindo um pouco da brutalidade presente em “Feliz Ano Novo” e no “O Cobrador”, mesmo que, em alguns dos 30 contos, alguns dos seus temas brutalistas retornem. Fonseca continua usando sua consagrada voz narrativa, contrastando uma voz fria do narrador das histórias com temas ardentes como hipocrisia à moda brasileira, violência urbana, machismo, perversões, rancor social, usando de uma linguagem que mistura o popular com o erutido, e que ao mesmo tempo que usa clichês, os quebra, descontextualizando-os.

As informações inusitadas continuam aflorando e surpreendendo o leitor, o tom irônico permeia grande parte dos contos. Os contos que mais gostei no livro são “O Garoto Maravilha”, “Soma Zero”, e até um conto que pensei que cairia no terror, o excelente “Escuridão e Lucidez”. Alguns contos mostram um lado mais ameno e até romântico do escritor, como “Família é uma Merda”. E em “A Madrinha da Bateria”, Fonseca mergulha no ponto de vista de uma personagem feminina, o que não é tão comum em sua obra. É um dos contos mais interessantes e diferentes do livro, e curti demais, daria um ótimo filme ou curta metragem.

Recomendadíssimo! 🙂

ANOTAÇÕES DE PEQUENAS CRIATURAS

Um conto raro, com uma surpresa otimista no final, achei bem legal.

Contos com um senso de humor permeando as narrativas.

Técnicas: Criar uma expectativa no leitor com o título e quebrar a expectativa com o clímax do conto, no final.

Mistura de registros de linguagem popular com linguagem culta. Definições de enciclopédias surgem me meio às narrativas.

Se aprende muita coisa interessante e totalmente aleatória com os contos do Rubão. Esse detalhismo, essas tangentes em detalhes estranhos dá sabor e aumenta o realismo das narrativas.

Muitas narrativas os personagens não tem nomes, são apenas vozes, pessoas, ricos, etc, indicados apenas de maneira genérica.

Contos desse livros mais light, é um Fonseca mais focado nas emoções, até mesmo romântico (à moda fonsequiana, do “eu te amo porra” ou “está tudo uma merda sem você”).

Raros protagonistas mostrando alguns arremedos de consciência, como o ladrão que teme não ir para o céu. A sensação que Fonseca deu uma “amolecida” (hahahahah!) nesse livro.

Contos no estilo “fatia da vida”, como Short Cuts do Robert Altman, recortes da vida cotidiana, e sem usar seus matadores de aluguel, etc. Contos de casais comuns em cenas de ciúmes, por exemplo.

Contos que abordam o amor. Contos mais focados em relacionamento. Senti ansiedade em alguns contos, esperando a morte e a violência, mas o ângulo era outro.

Dois dos contos abordam personagens femininos, com ótima penetração psicológica, um deles que lida com a angústia da relação entre uma mulher de classe alta e seu corpo e a dificuldade de aceitar seu próprio envelhecimento.

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No próximo post colocarei minhas impressões e anotações dos seguintes livros de contos do Fonseca:

A confraria dos espadas (1998), Secreções, excreções e desatinos (2001), Romance negro e outras histórias (1992) , Ela e outras mulheres (2006), Lúcia McCartney (1967).

Terminadas essas leituras, retornarei à literatura de fantasia, mergulhando agora no New Weird (a nova literatura estranha, na tradição lovecraftiana, uma mistureba contemporânea de horror, ficção científica e fantasia), com a trilogia Bas-Lag do China Miéville  Perdido Street Station (2000), The Scar (2002) e Iron Council (2004); intercalando com os três volumes de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. 🙂

E vocês, o que estão lendo no momento?

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