Só quem foi adolescente nos anos 80, e que era completamente nerd com a paranoia nuclear e a Guerra Fria, como eu era, pode entender como foi marcante assistir aquele anime maravilhoso naquela época, naquele tempo. A possibilidade de um apocalipse nuclear era mais concreta do que a cadeira esquenta o meu traseiro nesse momento. Eu, na minha piração nerd adolescente, usava essas narrativas pós-apocalípticas como guias de sobrevivência, com aquela visão de “o que eu faria nessa situação”. Isso me fazia consumir com voracidade tudo que rolava na cultura da época, os filmes do Mad Max, o filme para TV “The Day After – O Dia Seguinte”, entre trocentos outros. E foi nessa fissura que, por meio de uma fita mega-pirateada entre o minúsculo submundo anime-nerd de Belo Horizonte que o anime Akira explodiu meus miolos.

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Anos seguintes, em meio a revolução que passava pelos quadrinhos no Brasil, com Cavaleiro das Trevas, Watchmen, Ronin, Lobo Solitário, comecei a ler o mangá de Akira, e mais uma vez entrei em contato com a genialidade de Katsushiro Otomo. Mais até do que no anime, os temas de aniquilação nuclear e sobrevivência pós-apocalíptica são explorados até suas últimas consequências.

Mas nessa minha última releitura da saga, com um olhar mais amadurecido, reconheci novos elementos na narrativa, e considero Akira como sendo uma história que lida com temas muito ligados à experiência japonesa da Segunda Guerra Mundial, sua singularidade como o único povo atingido por uma bomba nuclear (o que explica os temas recorrentes de destruição apocalíptica, o topo do monstro gigante destruindo tókio, etc.) e do período pós-guerra.

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O mangá é bem diferente do anime, apesar de compartilharem os mesmos personagens, terem cenas e até temas em comum. A narrativa se divide em duas partes distintas: a primeira parte é, apesar de também pós-apocalíptico é bem cyberpunk e futurista, a segunda parte é completamente de sobrevivência pós-apocalíptica, com o cenário da primeira parte em ruínas absolutas.

A segunda parte, que compões a maior narrativa da saga, revela uma sociedade lutando para reencontrar a normalidade dentro do colapso social e arquitetônico de Neo-Tokyo. Uma busca trágica, pois, no final do arco narrativo, descobrem que não existe possibilidade de retorno ao período pré-apocalíptico, cujas memórias só podem ser acessadas atráves de fantasia nostálgica e do enfrentamento de traumas do passado.

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Essa busca pelo passado pré-apocalíptico, seja pelas memórias da infância de Tetsuo, seja pelo topo infantil que se repete na saga (tirando Tetsuo, todos os paranormais estagnaram seu desenvolvimento corporal, e muitos até psíquicos, no estágio infantil). É como se fosse uma expressão do desejo japonês de retornar a uma era onde Hiroshima e Nagasaki não aconteceram. Sempre me impressionou que a primeira cena de Akira, tanto no mangá quanto no anime, é a destruição de Neo-Tokio, uma referência clara ào bombardeio de Hiroshima e Nagazaki. É como se Otomo dissesse: “olha, vamos falar de como o bombardeio atômico fodeu com a mente do nosso povo”.

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Como Katsushiro Otomo nasceu em 1954 e cresceu em meio ao Japão pós-guerra e cada vez mais influenciado pela cultura americana, não experimentou diretamente o trauma do bombardeio atômico. Imagino que sua inspiração para Akira, com seus paranormais poderosos e sua singularidade (avanços tecnológicos que levam a criação de seres com capacidade infinitamente superior à inteligência humana, sejam inteligências artificiais, cyborgues ou pós-humanos como Akira e Tetsuo) seria de reconstruir o trauma do apocalipse japonês para uma nova geração, que só o compreende através da mediação histórica. Uma nova geração que cresceu dentro do caos que é o mundo pós-segunda guerra mundial, e que transformou, como Kaneda e sua gangue, o caos em uma nova normalidade.

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O final do mangá é uma rejeição à ideologia da nostalgia, uma rejeição a qualquer noção de patriotismo ou identidade fixa, em nome de uma identidade flexível, passível de adaptação e construção de novas organizações (como a nova nação que surge no final), ou identidades além das humanas (como a transcendência de Akira e Tetsuo).

Para Katsushiro Otomo, na minha interpretação da narrativa de Akira, um apocalipse não é o fim de tudo, após um apocalipse sempre existe uma reinvenção da cultura e da identidade, uma metamorfose e o estabelecimento de uma nova normalidade. Para o bem, ou para o mal, ou para além dessa dicotomia absurda. 🙂

E se você não leu, meu caro leitor, corre e leia! 🙂 É doidimais véééi! 😀

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ANOTAÇÕES DURANTE A LEITURA DO MANGÁ AKIRA

Seguem algumas anotações que fiz ao reler Akira, de Katsushiro Otomo. 🙂

Técnica Narrativa: Dialogos expositivos, a história abre com restos de um holocausto nuclear, distopia. Mesma preocupação do watchmen, zeitveist da época.

Tetsuo e a gangue agem como bullies com o número 26, a primeira das crianças velhas., espelhando o comportamento que tem na escola.

A relação entre a gangue da pílula é bem desenvolvida, a relação entre testuo e kaneda é uma das espinhas narrativas da saga.

Tema da delinquência juvenil contrastado com a delinquência governamental.

Rebeldia juvenil, e a narrativa visual muito cinematográfica e com toques mais ocidentais. Otomo disse que foi influenciado pelo cinema rebelde americano dos anos 70, filmes como Bonnie and Clyde e Easy Rider.

Técnica Narrativa: A narrativa é bem ágil, a cada três páginas algo importante acontece.

Técnica Narrativa: Uso de McGuffins, objetos que geram perseguições dentro da trama. Primeiro com a pílula que Kaneda rouba dos rebeldes.

Técnica Narrativa: Muitas narrativas de “busca-apreensão-retorno”, sempre correndo atrás de algo ou fugindo de algo.

Os planos do governo e dos rebeldes começam a dar errado a partir da interferência da gangue de Testuo e Kaneda, e do encontro acidental com o Número 26. A trama evita coincidências.

Uma das diferenças com o filme é o tema antropológico da organização de uma sociedade selvagem e religiosa ao redor de Akira, depois do primeiro cataclisma.

O tema das drogas esta presente desde o início, o simbolo da pílula, e da capacidade de desenvolver habilidades acima do limite humano por meio de drovas era muito presente nos anos 80, com a popularização dos esteróides, a cultura da cocaína como meio de se tornar um super executivo. Os filmes da época lidavam muito com esse tema, como Rocky 4.

Técnica Narrativa: Personagens femininas proativas, fortes, bem construídas e fugindo dos topos tradicionais de tramas de ação, Kay salva Kaneda muitas vezes. E adorei a personagem Chioko, uma mulher enorme e durona.

A arte é maravilhosa e a colonização da Epic Comics foi impressionante, incrivel como foi uma das primeiras colorizações de quadrinhos mainstream. As cores foram feitas emulando as aquarelas usadas tradicionalmente nas primeiras páginas dos mangás.

A narrativa passa para uma exploração de temas sobre o fanatismo religioso e comos cultos se desenvolvem.

As drogas previnem Tetsuo de aumentar seus poderes, e ele precisa aprender auto-controle. Metafora da culrura das drogas e do capitalismo sem limites dos anos 80, a decada do “cobiça” da era Reagan. É também uma narrativa de iluminação, tradição budista – oriental, gnóstica. A verdadeira natureza do homem é ilimitada.

Tema da singularidade, deuses criados pela ciência humana. Pós-humanismo e Trans-humanismo.

Tema cyberpunk, usar o lixo e reusar a tecnologia para novas configurações. A rua encontra seus próprios usos para a tecnologia.

Alta tecnologia do começo e baixa tecnologia da segunda parte.

Única coisa que não gostei, a arte vai ficando meio “nas coxas” à medida que vai chegando nos últimos volumes. Nem se compara mais com a arte dos primeiros volumes, parece que Otomo estava mais cansado! 😉

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