As Graphic Novels trabalham em vários níveis narrativos ao mesmo tempo, contrastando arte e história para criar um novo significado. Pyongyang – Uma Jornada na Coreia do Norte é um exemplo dessa peculiaridade, misturando desenhos minimalistas e divertidos com a realidade sombria e opressora da única dinastia comunista (na versão surreal e insana norte-coreana), uma técnica que mistura a leveza do traço com a dramaticidade do tema, criando um realismo emocional que toca o leitor e faz pensar.

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Guy Delisle um cartunista e animador francês foi convidado, em 2001, para trabalhar na capital da Coréia do Norte por dois meses, coordenando os trabalhos terceirizados de uma empresa de animação francesa. Como sendo um dos poucos ocidentais que tiveram esse tipo de experiência em um dos países mais isolados do mundo, Guy Delisle reconta suas vivências nessa graphic novel ganhadora de muitos prêmios.

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A arte é minimalista, em preto e branco, traços cartunescos contrastando com a opressão do ambiente, e captura muito bem a estranha e bizarra vida cotidiana da Coreia do Norte. A sensação que passa é que o país é a maior seita religiosa do mundo, com todas as estranhezas, técnicas de manipulação mental, rituais bizarros e cultos absurdos de personalidade mais comuns à seitas e cultos destrutivos do que a governos.

Guy Delisle documenta sua experiência com humor e honestidade, e com muita sensibilidade para os norte-coreanos que acabaram ficando seus amigos, pelo menos com o que é permitido de amizade dentro de um contexto totalitário.

A narrativa também passa a decadência da liderança norte-coreana, dá para sentir o desespero dos líderes daquela maluquice toda em manter as aparências, tentando preservar no maior tempo possível toda aquela piração.

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Gostei muito dos detalhes do cotidiano, as lojas com apenas dois tipos de sapatos, as rádios que tocam apenas hinos de idolatria ao grande líder, o terror silencioso que paira cada vez que o protagonista faz alguma pergunta que desafie a propaganda do regime. Em uma nota interessante, Guy Delisle conta que levou o livro 1984 de George Orwell para deixar com um dos seus tradutores, como um ato discreto contra o regime. Bem, nem tão discreto assim, 1984 é uma ficção científica distópica que descreve um mundo controlado por um regime autoritário de base comunista assustadoramente semelhante ao governo norte-coreano e que foi escrito no final da década de 40, é o livro que criou o termo Grande Irmão ou Big Brother, que no livro se refere ao ditador supremo que estaria, a todo momento, observando seus cidadãos para checar suas lealdades para com o regime. Guy Delisle faz várias referências ao “1984” durante a narrativa.

A frase da Graphic Novel que ficou me assombrando depois da leitura:

“No fundo, a verdade não importa, pois quanto maior é a mentira, maior é a demonstração de poder, e maior é o terror para todos. Um terror mudo, escondido.”

O mais aterrorizante é ver que é possível a existência de um governo capaz de controlar completamente a vida de seus governados, que é possível criar um sistema de dominação absoluta do espírito humano.

Fica a recomendação, uma excelente Graphic Novel, que me apresentou o trabalho do Guy Delisle. Agora vou tentar conseguir as outras obras desse francês.

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Uma viagem às recentes e bem sucedidas graphic novels com base nos personagens da mônica: Astronauta Magnetar, Piteco, Turma da Mônica dos Caffagi e Chico Bento com Pavor Espaciar! 🙂

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