Lúcia McCartney: ContosLúcia McCartney: Contos by Rubem Fonseca

My rating: 4 of 5 stars

Lúcia McCartney é um livro de confronto. Confronto com a literatura, confronto com o leitor, confronto com o contexto histórico dos anos 60, confronto com a censura da Ditadura Militar, confronto, confronto, confronto. Não é por menos que o primeiro dos dezenove contos do Rubão, “O Desempenho” se trata de uma luta de vale-tudo, narrada magistralmente em primeira pessoa. Agora, quem me perguntar como faz para colocar o leitor dentro da cabeça de alguém levando porrada vou recomendar a leitura desse conto, pelo menos umas vinte vezes. É foda pra caralho a técnica desse véio doido.

Adorei o livro inteiro, experimental para caramba, parece escrito por um monte de escritores, como se o Rubão virasse um médium desses brabos e servisse de “cavalo” para uma galera de espíritos escritores determinados em estraçalhar com a mesmice e o conformismo do começo dos anos 60 (que acabou explodindo toda aquela sociedade hipócrita no final da década, deixando tudo fragmentado até hoje, pode parecer que o nosso mundo tem algum tipo de coesão, mas é tudo ilusão, tudo arremedo, tudo máscara, não tem mais nada com base sólida, como imaginava a tradicional família brasileira dos anos 50).

Tirando as maluquices joycianas de alguns contos, que achei doidimais e senti pena que o Rubão não repetiu essas pirações modernistas em contos futuros. Rubão também mostra sua maestria no conto do submundo da prostituição carioca, principalmente no conto que traz de volta o Mandrake, o detetive mais cafajeste e carioca que já li e que suspeito que seja o alter-ego do Rubão.

O conto que dá o título ao livro, o Lúcia McCartney é muito bom, uma pequena obra prima, daqueles que merecem ser estudados por sua estrutura impecável, experimentação de ponto de vista narrativos e mudanças de registros de textos feitras para atordoar o leitor. E para alguns críticos fudidos que detonam o Rubão por suas personagens femininas, uma grande idiotice ao meu ver, esse conto mostra que o véio tem a manha, a personagem Lúcia salta das páginas, daria tranquilamente para sustentar um romance de trocentas páginas.

Fica a recomendação, com a ressalva de que alguns contos são bem experimentais, feitos para desafiar as convenções e para espancar o conformismo literário da cabeça do leitor! 🙂
* * *
Próximas Leituras:
Estou no meio do The Sense of Style: The Thinking Person’s Guide to Writing in the 21st Century, do Stephen Pinker, um guia de dicas para escritores bem especial, escrito pelo linguista superstar (e gato, segundo a minha esposa!) mais famoso do mundo. Estou no meio do livro, que aplica os conhecimentos recentes da neurocognição, da linguística, da gramática generativa, e outros troços acadêmicos contemporâneos, como base de suas dicas para melhorar a qualidade e a clareza da escrita.

Depois iniciarei a leitura da trilogia Bas-lag do China Miéliville, com Perdido Street Station, intercalando com a trilogia O Tempo e o Vento do Érico Veríssimo. 🙂

Veja todas as minhas resenhas!

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