Um Defeito de Cor – Ana Maria Gonçalves | Pode um romance conter toda uma vida? #resenha

Um romance é capaz de conter toda a vida de uma pessoa, com suas complexidades, paradoxos, contradições, alegrias e tristezas? Um romance é capaz de conter toda o sofrimento de um povo? Se você ainda tem dúvida, leia “Um Defeito de Cor”, esse já clássico da literatura brasileira, um romance tão maravilhoso como necessário, escrito pela Ana Maria Gonçalves, que considero uma das melhores escritoras que ja li na minha vida.

Um romance cosmogônico, uma saga impressionante e muito bem escrita, um clássico da literatura mesmo sendo tão recente. Não conheço outro livro semelhante na nossa literatura que seja tão épico, tão extenso e que trate de maneira tão sensível e íntima o ponto de vista feminino da tragédia e dos horrores da escravidão no Brasil, o nosso imenso Holocausto, que sempre foi insuficientemente estudado e discutido pelo nosso péssimo sistema educacional.

Defeito de Cor é uma história de origem contada pelo ponto de vista de Kehinde, uma africana arrancada da região de Daomé, na África e levada como escrava para o Brasil. Toda a narrativa é feita dentro da premissa de Kehinde contando sua história pessoal, desde sua infância até sua velhice, uma história que vai sendo transcrita por uma de suas amigas para ser entregue ao filho, agora adulto, que foi tirado quando criança dela enquanto estava no Brasil. Essa estrutura é muito interessante, pois transforma o leitor no filho de Kehinde, me senti como se a narradora falava diretamente para mim, e de certa forma, todos os brasileiros são “filhos de Kehinde”.

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A técnica narrativa usada foi a do discurso indireto em primeira pessoa, que funciona muito bem em romances históricos, torna a exposição de contexto histórico mais natural. Gostei demais do estilo de Ana, conciso, sem muitas firulas, linguagem direta e enganosamente simples, ao mesmo tempo que a oralidade do texto cria efeitos poéticos no leitor. Eu engasguei e me emocionei muitas, mas muitas vezes durante a leitura desse tijolão, o que eu adoro, quem vem aqui no blog sabe, curto livros gigantescos, e “Um Defeito de Cor” tem quase mil páginas! E olha que terminei o livro querendo mais, querendo que Kehinde continuasse suas infinitas histórias; essa Sherazade de Daomé. Outra coisa que amei foi a força de Kehinde, isso é que é protagonista, fortíssima, inspiradora, valente, perseverante, fantástica, uma bela adição para o rol de personagens da literatura brasileira.

E esse é um romance com muita exposição, mesclando a história pessoal de Kehinde com fatos históricos, revoluções, com quase uma enciclopédia de cultura afro-brasileira, um glossário maravilhoso e um guia para as diversas matizes das religiões africanas e suas variações brasileiras, tudo sob o ponto de vista de Kehinde e dos negros brasileiros e africanos do período colonial e imperial no Brasil, um ponto de vista que quase nunca mereceu a atenção necessária. O livro revela a grande lacuna e falha na história tradicional do Brasil que omite todas as incontáveis rebeliões de escravos que sempre aconteceram durante a escravidão brasileira, uma omissão criminosa na nossa educação.

E a questão da escravidão é mostrada em toda sua complexidade, não existe maniqueísmo no livro, com brancos cruéis ao lado de brancos que se empatizam e até lutam pela liberdade dos negros. No lado africano, temos expostos a brutal realidade tribal africana, a sanguinolência das disputas tribais, a tirania dos chefes de tribos e dos reis africanos, fazendo sua parte dentro do horrendo comércio de escravos.

Outro aspecto interessante é o mergulho no ponto de vista da espiritualidade afro-brasileira, com seu sincretismo e com o modo poético de experimentar a vida, com os voduns, orixás, eguns, e outras forças vindas do orum para guiar, aconselhar, proteger e orientar cada passo. Fiquei até com um desejo impossível e romântico de vivenciar essa visão mistica da vida, que parece encher tudo de mistério, de sinais e sinas, de significado e sentido, mas para isso tenho a literatura, para viver outras vidas, ver outras realidades e me emocionar com a beleza sofrida da experiência humana.

Agora fica um aviso, o livro é também muito sofrido, muitas passagens bem dolorosas e cruéis, bem tristes, de encher de vergonha e de revolta pela escravidão no Brasil, essa parte horrenda da história de nosso país, uma tragédia que deixou marcas e consequências até hoje. Precisamos de mais livros como “Defeito de Cor”, muitos outros livros como esse. É uma pena que ninguém mais lê, que as pessoas lêem cada vez menos, uma pena mesmo.

Fica a dica do livro, vale cada linha, cada palavra, e espero que como eu, você se apaixone por Kehinde.

Ah, como é bom ler um livro assim, daqueles que marcam a gente para sempre!


ANOTAÇÕES FEITAS DURANTE A LEITURA (PODEM CONTER SPOILERS)

Narrativa segue o amadurecimento do narrador, comeca trágico.

A brutal realidade tribal africana, das disputas tribais, e o medo da feitiçaria que gera violência contra mulheres velhas e sábias, curandeiras, etc.

Visão de mundo mítica, oa mortos são tão importantes quanto os vivos

A violência e o horror da travessia, dentro do ponto de vista da Kehinde.

Técnica Narrativa – pov de primeira pessoa, descrições diretas e concisas, voz muito pessoal e forte.

Protagonista fortíssima.

Descrições maravilhosas, e um pov sem melodrama, o que aumenta a tragédia.

As histórias dos negros, os mitos tradicionais unindo tribos.

Ponto de vista imerso na espiritualidade africana, maravilhoso.

O dia a dia daa escravas que serviam dentro da casa grande, o medo constante da punição, e progressiva colonização cultural, a mudança do olhar, a violência do esquecimento das raízes.

A vaidade pessoal de Kehinde como uma estratégia de resistência.

Sincretismo religioso como estratégia de resistência

O horror das fugas e a hipocrisia da igreja da época.

A importância dos musurumin, is africanos muçulmanos na resistência cultural e psicológica.

O quilombo como um sonho de vida livre, como esperança.

Conventos, a opressão sobre as mulheres brancas, patriarcado colonial.

Estratégias de sobrevivência, Kehinde é fantástica, inteligente, criativa. Uso do comércio como um caminho para a liberdade. Dinheiro como a única opção de liberdade social, mesmo que ilusória, sem violência.

Livros e a leitura como o caminho para a libertação da alma.

A sinhá de Kehinde é um monstro, e o mais assustador é que sua personagem segue a consequência natural do racismo colonial.

A religião africana como proteção psicológica contra o assalto cultural do catolicismo colonial.

Religião mudando no contexto brasileiro.

Oralidade e capítulos bem delineados tornam a leitura deliciosa, e gente fica querendo que a história não acabasse nunca.

Mesmo com tanta injustiça e angústia, a narrativa alterna com momentos de paz, amor, alegria e amizade, que me emocionaram muito.

O romance clássico de nascimento.

Símbolos recorrentes : riozinho de sangue, a cobra misteriosa que surge em momentos chaves da narrativa, a presença dos orixás e voduns.

Kehinde, empreendedora, usa seu dinheiro para livrar outros escravos.

Uma das histórias dos escravos, da mãe que mata os filhos por desespero me lembrou Beloved de Toni Morrison.

Kahinde tem muitos elementos do arquétipo do Trapaceiro, em uma versão feminina diferente da Sedutora, mais próxima do Ladino, quebrando o topo tradicional.

Registro dos rituais e cultos dos negros das diversas culturas que viviam na Bahia no período, um registro fascinante.

A partir de uma parte do romance, a narrativa é feita em primeira pessoa mas se dirigindo ao leitor em segunda pessoa, como se o leitor se transformasse em um dos filhos de Kahinde, adorei! 🙂

Kahinde tem espírito empreendedor, uma energia incrível, invencível, a encarnação da força de vontade imbatível do povo africano.

Técnica narrativa – capítulos curtos encerrados com ganchos tipo “o pior ainda estava porvir”

Técnica narrativa – exposição feita por meio de contação oral, ajudada pelo fascínio das informações e do desejo do leitor em conhecer a cultura africana.

Kehinde se transforma em uma heroína épica, eternamente em sua buaca pela felicidade.

A terceira e última parte do romance se passa no Rio.

I romance tem um necessário tom didático sobre o cotidiano brasileiro do século 19 do ponto de vista dos pretos.

Belissimas descrições da capoeira, arrepiei e me lembre dos muitos anos que joguei capoeira, saudades.

Quase no final do livro – estou apaixonado por Kehinde, acho que o leitor não tem outra escolha senão se apaixonar por Kehinde.

Espiritualidade africana muito ligada ao inconsciente, ou melhor, em uma leitura jungiana, eles são os mestres da interpretação dos movimentos do inconsciente coletivo.

Na última parte, a amoralidade do comércio, inevitável para a sobrevivência no período.

Ex-escravos retornando para África e se tornando mercadores de escravos.

Rivalidade entre is Retornados e os Africanos, muitos que eram enviados para a África forçados, imploravam para voltar ao Brasil, meamo em condição de escravo.

A brutalidade e a ação coruptora da miséria e das gueras tribais constantes na Africa da época.

No Brasil, os escravos tentavam manter as raízes africanas, os que retornavam para a África, tentavam manter os costumes brasileiros.

Histórias dentro de histórias, uma biblioteca de histórias do ponto de vista dos negros africanos e brasileiros.

O livro tembum lado glossário de termos da cultura africana e afro-brasileira.

Uma das espinhas principais da narrativa é uma rara visão “de dentro” da espiritualidade africana, base do nosso sincretismo, uma religião mais próxima da arte, da criação e criatividade artística.

O choque de Kehinde ao ver os rituais de sacrifício humano na África para a celebração fa morte de um quase-rei mostra a influência da cultura cristã nos africanos retornados para a Africa do Brasil, é o processo sem fim de influência cultural entre os povos.

No final do livro, na relação entre Kehinde e sua filha ilustrada na França, mostra os problemas das mulheres que tinham cultura na época e sua solidão, pela rejeição dos homens machistas.


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Ana Maria Gonçalves nasceu em 1970, na cidade Ibiá-MG. Publicitária por formação, residiu em São Paulo por treze anos até se cansar do ritmo intenso da cidade e da profissão. Em viagem à Bahia, encantou-se com a Ilha de Itaparica, onde fixou residência por cinco anos e descobriu sua veia de ficcionista, passando a se dedicar integralmente à literatura. Atualmente, reside em New Orleans, no estado americano da Louisiana.

Em 2002, estreou como escritora com a publicação de Ao lado e à margem do que sentes por mim – “livro terno, íntimo, vivido e escrito em Itaparica”, segundo o depoimento de Millor Fernandes. O livro teve circulação restrita, apesar da primorosa edição artesanal. Mas é em 2006 que a autora se torna conhecida no meio literário com o lançamento de Um defeito de cor, épico de 952 páginas. O romance narra a trajetória de Kehinde, uma escrava nascida no Benin (atual Daomé), desde o instante em que é capturada, aos 8 anos, até seu retorno à África como mulher livre, porém sem o filho, vendido como escravo pelo próprio pai a fim de saldar uma dívida de jogo. O texto dialoga com o modelo pós-moderno da metaficção historiográfica e traz para a narrativa parte da trajetória de vida do poeta Luís Gama, também ele vendido como escravo, embora nascido livre.

Um Defeito de Cor conquistou o importante o Prêmio Casa de Las Américas de 2007 como melhor romance de literatura brasileira.

Ana Maria Gonçalves vem participando de inúmeros eventos literários no Brasil e no exterior. Atualmente, prepara seu novo romance, que aborda o universo das Minas Gerais no tempo da colônia.

Onde Comprar:

http://www.livrariacultura.com.br/p/um-defeito-de-cor-1407629

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