Mundo Perdido – Patrícia Melo | A Vingativa Sequência de “O Matador” | NITROLEITURAS #resenha

Dez anos depois de “O Matador”, o foragido Máiquel embarca em uma jornada de vingança em busca de sua filha!

Mundo Perdido – Patrícia Melo | 200 páginas, Rocco, 2010 (1ed. 2006) | Lido de 16.11.17 a 17.11.17 | NITROLEITURAS #literaturabrasileira #crime #ação #policial


SINOPSE

Em Mundo perdido, Patrícia Melo continua a contar a história de Máiquel, protagonista de O matador.

Dez anos se passaram e ele, que já foi justiceiro da periferia e Homem do Ano do bairro, se tornou foragido da polícia. Mais desiludido do que nunca, o personagem volta a São Paulo para receber uma herança e decide procurar a filha, Samanta, fruto de seu primeiro casamento.

Embora faça o possível para deixar a antiga vida para trás, ele não consegue escapar da violência que marca sua trajetória.

Alternando os papéis de vítima e algoz, Máiquel vive a realidade de quem está à margem da sociedade e sofre as consequências desse isolamento.

Com uma narrativa direta e intensa, Mundo perdido é o retrato de um Brasil violento, movido pela corrupção.

A Rocco deu início à reedição da obra completa de Patrícia Melo com Acqua Tofana e O matador. A editora vai relançar, com novo projeto gráfico, todos os livros da autora.

O romance é a continuação de O Matador, lançado em 1995, e que rendeu uma adaptação para o cinema com roteiro de Rubem Fonseca (o filme O Homem do Ano, de 2003).

Nesse livro, conhecemos Máiquel e como ele veio a se tornar o justiceiro da classe média da zona sul paulistana, firmando contratos de morte por trás da fachada de uma empresa de segurança patrimonial.

Dez anos depois, em Mundo Perdido, o personagem já está plenamente adaptado à sua condição de foragido e sabe que tudo que precisa para não ser preso é se manter às margens do sistema (não tem cheque, não tem cartão, não tem casa) e evitar, ao máximo, se envolver em algum outro assassinato.

Quando, entretanto, depois de receber a parca herança de uma última parenta, ele toma consciência de sua vida e decide mudá-la, a solução que encontra é ainda a mesma que fez ruir seu destino: matar.


RESENHA

Em “Mundo Perdido”, Patrícia Melo retoma a história do matador Máiquel, o mesmo protagonista do filme “O Homem do Ano”, agora, dez anos depois e foragido da polícia.

O personagem continua bem interessante, mesmo sem ter amadurecido nadica de nada nos dez anos que se seguiram. Máiquel continua sendo uma espécie de ID encarnado, instintivo, impulsivo, imediatista, mulherengo, cruel e sempre justificando a própria crueldade, e sempre com uma visão crítica, politicamente incorreta, cínica e bem ácida da sociedade brasileira.

Em uma versão pervertida e tupiniquim bizarra do James Bond, Máiquel transa com quase todas as personagens femininas que vê pela frente, o que dá um tom à narrativa que balança entre o humor negro, algo do estilo pulp aventuresco da literatura policial ou de thriller mais tradicional.

A diferença é o trabalho mais profundo da Patrícia Melo, que usa da estrutura aventuresca, estilo “road movie”, pois Máiquel percorre diversas cidades do Brasil e da Bolívia em sua jornada em busca de sua filha, para abordar temas brasileiros relevantes.

Um dos focos de Mundo Perdido é o tema da hipocrisia dos líderes milionários das de igrejas evangélicas brasileiras, com a manipulação psicológica dos seguidres vistas pelos olhos frios de Máiquel.

Outro tema interessante é a relação entre os movimentos de sem-terra e o comércio ilegal de madeira, algo que só tomei conhecimento nesse livro. O drama desses grupos com fazendeiros e policiais também é abordado.

Um elemento que curti foi a relação do Máiquel com um cachorro, algo que suaviza um pouco a brutalidade e a amoralidade do personagem. Foi uma boa jogada da Patrícia!

Máiquel é forçado a confrontar as consequências de suas ações em “O Matador”, mas, acaba não se arrependendo, com seu arco se tornando bem nihilista, algo quase kamikaze mesmo.

Curti muito, principalmente o último ato da narrativa, que é bem “page turner”, com um clímax que adorei!

Recomendo!

Indicado para leitores que:

* Leram “O Matador”, essa sequência é obrigatória.
* Curtem jornadas de vingança.
* Queiram conhecer mais sobre o submundo das drogas, do comércio ilegal de madeira, e dos esquemas de arrecadação de dinheiro feito por seitas religiosas do centro e do norte do Brasil.

ONDE COMPRAR:
Amazon
https://goo.gl/6BZ7uC

TRECHOS

“Um burro, o marido, continuou Divani. Uma coisa é morrer porque você tem que morrer. Câncer, essas paradas. Isso é destino. Ser atropelado é outra, totalmente diferente. É coisa de pobre burro. Depois que o Marcos morreu, passei a prestar atenção na maneira como as pessoas atravessam a rua. Os pobres. Eu não, porque tenho massa cinzenta. Se atiram debaixo dos carros.”

“Mais fotos, Érica de biquíni, na piscina, celular na mão. Corpão, toda malhada. Vai ver que tem amante, pensei. Pelo menos, essa era a teoria da Érica. Academia ganha dinheiro é com adúltera, ela dizia. Adúltera é que gosta de academia. As que falam que gostam de fazer ginástica são mentirosas descaradas.”

“Estava envergonhada no restaurante, com medo dos garçons, dos talheres, dos pratos, dos copos, eu conhecia aquele sentimento. Já tive muito medo na vida. Depois que adotei meu lema ‘foda-se’, tudo ficou mais fácil.”

“Na hora que você começa a pagar um carnê, você já morreu e não sabe.”

“Cada nome, Jesus Aqui e Você com Ele, Corneta de Deus, eu estava lendo a lista de igrejas evangélicas que Jonas, o detetive, me trouxe. Margaridas de Jesus, Ventos de Deus, parece peido, isso, eu disse, vento de Deus é peido. Cidade das Ovelhas de Deus, você quer que eu leia tudo isso?, perguntei. Três páginas, só com nome de igreja evangélica.”

“Eu ando pensando em virar pastor, também, disse Anderson, isso é que dá dinheiro no Brasil. Além do mais, você não precisa de faculdade, é só blá-blá-blá mesmo, sabendo ler e escrever, o Espírito Santo cuida do resto.”

“Otávio Freitas é daqueles que acreditam que igreja é como saneamento básico. Para ele, uma cidade tem que ter banco, esgoto, água encanada, McDonald´s e galpões evangélicos.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.