Como escritor, e principalmente depois de decidir me profissionalizar de vez como escritor, um dos tipos de literatura que mais me atrai, são os livros com dicas dos profissionais da área. E no campo da roteirização, Blake Snyder é um dos autores mais citados e referenciados, principalmente pelo seu revolucionário livro Save The Cat!.

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Save The Cat! é uma espécie de manual prático para criação de roteiros para sucessos de Hollywood. Blake Snyder é um roteirista profissional que trabalhou ele morreu em 2009) com diversos diretores e em dezenas de filmes comerciais para Hollywood. Sua vasta experiência analisando, escrevendo e vendendo filmes lhe mostrou a falta de material prático e técnico para roteristas. A maioria dos cursos e materiais para ajudar aos roteiristas chegarem a um nível profissional, era, no seu ponto de vista, muito teórica e longe do que realmente funcionava nas bilheterias. A grande maioria dos escritores de cinema aprenderam por conta própria, errando muito,seguindo dicas de outros autores mais experientes, e assim, gastando muito tempo até chegar a um nível satisfatório. Com isso em mente, Blake escreveu Save The Cat!

O livro tem uma linguagem bem direta e sem artifícios. É meio irônico e cínico, porque o objetivo principal é passar os truques e segredos dos roteiros de sucesso de Hollywood e apontar as causas dos fracassos de roteiros que não seguem alguns princípios básicos que funcionam com o público.

O título se relaciona a uma técnica de criar empatia com o protagonista de uma narrativa. A técnica é colocar uma cena, no começo, onde o protagonista salva um gato e assim cria empatia no público. A idéia de salvar um gato é metafórica, é claro, o princípio é colocar uma cena inicial que mostre claramente para o público qual é a natureza essencial do seu protagonista, e criar algum tipo de ligação emocional, antes mesmo da história começar. Como exemplo ele dá a primeira cena de Pulp Fiction onde conhecemos John Travolta e Samuel Jackson. Eles são assassinos de aluguel, pessoas desprezíveis, mas a cena inicial mostra eles discutindo os termos usados na França para sanduíches do Mac Donalds. Essa discussão é muito engraçada e os torna simpáticos ao público, mesmo com o banho de sangue que ele causam na cena seguinte.

Conceitos que são comuns no dia a dia da produção de um filme são passados de maneira didática e prática, o foco principal é ensinar ao leitor como funciona o processos de criar, formatar, escrever e vender um roteiro para Hollywood. Porém, suas dicas são muito boas para quem quer escrever romances também, desde que devidamente adaptadas.

Ele desenvolve vários temas nos capítulos: como desenvolver histórias que ao mesmo tempo são familiares e diferentes, como trabalhar arquétipos de personagens, como aumentar o impacto emocional de suas histórias, os diversos tipos de histórias dos filmes de sucesso, etc.

Dentre as diversas dicas, a parte mais espetacular está em uma maneira prática de estruturar suas história, seguindo a fórmula de filmes de sucesso. O interessante é que, apesar de serem apenas princípios e de existir várias exceções dessa estrutura; quando aplicamos o esquema das “Batidas da História” (batidas dentro do contexto de um ritmo, com as batidas de um tambor) em filmes consagrados, as cenas caem exatamente dentro de cada uma das “batidas”.

Eu recomendo ler o livro inteiro, mas vou colocar aqui um resumo da estrutura das “Batidas da História”. Essa estrutura é muito boa para revisarmos as nossas histórias e ajudar a consertar cenas que não estão cumprindo o papel de criar uma experiência emocional importante no leitor.

O conceito de “batida” deve ser entendido como partes do ritmo de uma história, assim com as batidas do bumbo formam o ritmo de um samba, por exemplo. Cada batida de história se une para formar os três atos dramáticos, que é o modo mais comum de se estruturar um filme. Existem outras formas de estruturar um filme, porém, a única diferença está no número de atos, fazendo com que tenhamos vários pequenos sub-clímaxes antes do clímax final. E é claro que estamos tratando de histórias com trama clássica, e não histórias experimentais sem trama.

A ESTRUTURA DE ROTEIRO DAS BATIDAS DA NARRATIVA DO SAVE THE CAT!

1. Imagem de Abertura (INÍCIO DO PRIMEIRO ATO)
Todo filme deveria abrir com uma poderosa imagem inicial para prender o público, os fazer parar de comer pipoca por um tempo e se acomodar em seus assentos. A imagem dá o tom, o gênero, apresenta os personagens principais (ou pelo menos um deles), etc. Essa imagem também mostra um mundo de normalidade que irá rapidamente ser destruído ou abalado no momento que começamos a nossa jornada. Ou a imagem mostra a transição de um mondo de normalidade para o mundo desestabilizado gerado pela premissa da história.

2. O Tema do Filme é Declarado (página 5 do roteiro)
Essa “batida” fala para o público sobre o que o filme. Ela coloca o argumento ou o conflito, usualmente declarada pelo personagem principal. Por exemplo, ele fala “ a vida não é justa”, ou “e se eu fosse rei por um dia”, etc. Pode ser uma cena, ou um acontecimento que dá partida para a história.

3. Preparação do Contexto do Filme, ou Set-Up (página 1 a 10 do Roteiro)
A primeira dez páginas de um roteiro deveriam ter uma narrativa fechada e completa para preparar e estabelecer o contexto da narrativa. Nesse ponto, o público precisa ter uma idéia do tipo de conflito que irá nos levar pela narrativa do filme. Até a página 10 de um roteiro, precisamos ter um protagonista claro, um antagonista (ou forças antagonistas) claras, e ter os conflitos e o tema da história bem nítidos para o público.

4. Evento Catalisador de Mudanças (Página 12 do Roteiro)
Essa cena é o chamado da aventura, o despertar. Algo sacode o nosso protagonista e o força a agir. Esse ponto é Evento Instigador dentro da estrutura tradicional de três atos. É o primeiro dos três grandes desastres da história, entendendo desastre como uma mudança radical na situação do protagonista dentro do contexto da história.

5. Dilema e Reflexão (página 12 a 15 do Roteiro)
Um período de dilema, reflexão, dúvida e tomada de decisão. O herói começa sem saber o que fazer em relação ao Evento Catalisador e termina forçado a tomar algum tipo de decisão. Essa decisão dá prosseguimento a história.

6. Primeiro Ponto de Mudança (página 12 do Roteiro)
O herói é forçado a agir e não pode mais retornar a sua condição de origlem. O velho mundo é deixado para trás e uma nova jornada começa. Este é o primeiro Ponto de Mudança, e o final do Primeiro Ato.

SEGUNDO ATO
7. História Paralela (página 30)
A história secundária começa aqui. Ela pode circundar em torno da história central e do tema, ou pode complementar os elementos da história principal. Normalmente são histórias de relacionamento, amizade, amor, rivalidade, ou histórias envolvendo personagens secundários para realçar a história principal, seja por contraste, semelhança, palalelismo, simbolismo, etc.

8. Diversão, ou Reforçando a Premissa da História (página 30 a 55)
Formando a parte principal do Segundo Ato, aqui é onde o conflito e a ação aumentam de intensidade. O protagonista experiencia várias derrotas e falsas vitórias. Essa é a parte onde vemos as ações prometidas pelo cartaz do filme (ou pela capa do livro). Esse é o momento onde premissa da história acontece. Por exemplo em Gladiador, ao ver o cartaz e ler a sinopse, queremos ver as lutas na arena, que acontecem dentro dessa “batida” da narrativa.

9. A Metade da Narrativa (página 55)
A metade da narrativa é onde a grande maioria dos roteiros fracassa. Os riscos ao protagonista estão declarados e aumentados, o herói está pressionado e parece que não irá conseguir vencer os conflitos. Esse ponto divide o roteiro em duas partes. A primeira parte é a preparação e a segunda parte é a resolução da narrativa. A Metade da Narrativa é o ponto mais alto de tensão na história, a partir daqui começa a resolução do conflito principal. E a resolução tem que ser plausível sem ser previsível, tem que surpreender sem forçar a barra. Esse é o ponto que separa os amadores dos profissionais.

10. Os Vilões se Aproximam (página 55-75)
Nessa parte o protagonista está em grandes apuros, internamente e externamente. O poder dos antagonistas chega no seu auge. Esse é o ponto onde tanto o protagonista quanto seus aliados começam a sofrer muito nas mãos dos antagonistas.

11. Tudo Está Perdido (página 75)
Nessa parte da narrativa, chegando perto do final, o protagonista está no seu ponto mais baixo, na sua pior situação dentro do contexto da história. Esse é um período de morte metafórica, onde algo precisa morrer para dar espaço a um renascimento. Essa é a parte onde aliados morrem, tragédias pessoais para o protagonista acontecem, etc. Final do Segundo Ato.

TERCEIRO ATO
12. A Noite Escura da Alma (páginas 75-85)
É uma segunda versão, bem mais hardcore, do Dilema e Reflexão antes do final do Primeiro Ato. Aqui o protagonista perdeu todas as experanças e suas reflexões e dilemas não lhe mostram uma saída clara. No final dessa cena, um novo elemento, uma conclusão, uma descoberta o tira da Noite Escura da Alma e sua nova decisão lança a narrativa em uma direção diferente da prevista. Esse momento final é também chamado de Segundo Ponto de Mudança.

13. Climax (página 85)
O protagonista tem um novo plano graças ao novo elemento (idéia, conclusão, revelação, ajuda de aliado,etc.) introduzido na Noite Escura da Alma. Ele soluciona o Conflito Principal da história, supera seus antagonistas, etc.

14. Final (página 85 – 110)
O protagonista emerge em um novo mundo com um novo conhecimento, uma nova atitude ou outro tipo de mudança significativa em sua visão de mundo. O final deve mostrar uma transformação do protagonista palpável e visível para o público.

15. Imagem Final (página 110)
Uma cena que mostra a diferença entre o antigo mundo do início da narrativa e o novo mundo depois da narrativa.

Existe bilhões de variações dessa estrutura, aumentando e diminuindo etapas, quebrando outras etc. O importante é entender que são princípios e não regras, elementos dramáticos que aumentam a efetividade de uma história. É importante conhecer as estruturas tradicionais, principalmente se quisermos quebrá-las. O melhor exemplo para mim é de Picasso, que primeiro dominou o modo tradicional de pintura para depois desenvolver o cubismo.

Fica a recomendação de leitura do Save The Cat! E convido aos leitores a analisarem diversos filmes usando essa estrutura, você vai se supreender! Analise os filmes da Pixar, Avatar, Batman, etc. por exemplo!

Amazon Save The Cat!

Site Oficial do Save The Cat!
http://www.blakesnyder.com/

Nesse site eles analisam filmes de sucesso dentro da “Beat Cheet”, a estrutura das batidas da narrativa que coloquei nessa resenha! 🙂

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